Barata Cichetto – A Verdadeira História de Deus e Diabo

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Barata Cichetto


Pois Deusa e Diabo formavam um casal lindo
Ela era sempre alegre e Ele sempre sorrindo.
Casados havia muito tempo em bodas eternas,
Tinha Deusa sempre o Diabo entre as pernas.

E Diabo fodia com Deusa na grama e no ar,
Enquanto Ela cozinhava sua doce sopa estelar.
E entre uma e outra deliciosa criação culinária,
Diabo A fodia, chamando de cadela ordinária.

Deusa sorria, bordando enorme tecido com peixes,
E dizia: “Diabo amado, peço que nunca me deixes”
Mas, Ele sorria continuando as suas lides de marido,
E Deusa não entendia que o sorriso lhe tinha ferido.

Um dia, depois de eras de uma gestação anormal,
Surgiram seus rebentos nascidos de parto normal.
E uma era chamada de Eva, e o outro era de Adão
Mas, um deles era o Pecado e a outra era o Perdão.

E cresceram brincando no jardim as crianças felizes,
Pois eram do bem e do mal, apenas dois aprendizes.
E enquanto a mãe na cozinha criava doces universos,
O pai atrás Dela lhe fodia a bunda em atos perversos.

Era uma família feliz aquela: Mãe Deusa, a Filha Eva,
Adão, o Filho e Diabo Pai, uma bela família primeva.
Sua casa era um Jardim, um pueril e bonito Paraíso,
E tinha nela toda paz e toda guerra que era preciso.

E como ali o tempo tinha um jeito estranho de correr,
Como se fosse uma doce calda de pudim a escorrer.
Ninguém tinha uma idade e ninguém fazia aniversário
Portanto, não era o tempo o inimigo nem o adversário.

Mas, o tempo avança e Eva agora tinha belos peitos,
E tanto Adão quanto Diabo perceberam seus trejeitos.
E nem bem Eva se tornara mulher, virou a concubina:
Agora era fêmea, e no Jardim deixou de ser menina.

Até que um dia, caminhando em seu Jardim faceira,
Deusa ouviu gemidos vindos de uma doce macieira,
E uma serpente que criou voz, não se sabe os motivos,
Contou-lhe que filhos e o marido faziam atos nocivos.

Deusa guardou seu avental sujo de doce de planetas,
E apanhou a uma lança, uma espada e duas canetas.
E aos gritos de “pecadores sumam da minha cozinha”
Viu-se de uma hora para outra ali no Paraíso, sozinha.

Adão ainda chorou e implorou perdão de mãos postas,
E Eva, atordoada de assombro, apenas virou de costas,
Enquanto o Diabo soltou uma gargalhada, e aos ventos,
Gritou que seria Ela, Deusa, apenas Rainha dos conventos.

E Deusa, furiosa, os amaldiçoou com o tempo presente,
Sem saber que o eterno, é aquilo o que a gente sente.
E se agora não tinham mais seus filhos a imortalidade,
Tinham perante si todos os motivos para a Eternidade.

Enlouquecida, Deusa abandonou as panelas mágicas,
Deixou de criar doces de mundos e compotas trágicas.
Doces queimaram no fundo e amargo ficou o pudim,
E nunca mais Deusa foi vista andando nua no Jardim.

E então, Adão e Eva saíram pelo mundo, antes apenas,
Um doce feito com carinho pela mãe, e sem as penas.
Transaram feito loucos até nascerem o par de rebentos,
Caim e Abel, dois moleques danados, tolos e remelentos.

E até porque era costume naquela antiga família bonita,
Caim e Abel comeram Eva, pois a prole era de ser maldita,
E Caim matou ao outro, por ciúmes dos desejos maternos,
Sendo que Adão se tornou o primeiro dos cornos paternos. 

Mas, onde andaria Diabo, o Pai de todos aqueles infelizes?
Um dia lembrou Adão, pensando em todos os seus deslizes,
E foi encontrá-lo, agora à frente de uma enorme Legião,
Formada pelas putas e os anjos doces achados na região.

E todos fodiam a todos, fumavam ervas e faziam sua arte.
Amavam a noite, fodiam de dia, e todos faziam sua parte.
A música era barulhenta, e a tribo ainda escrevia poesia;
E ali não havia doces de galáxias, lendas, nem hipocrisia.

E como ninguém lembrava de Deusa, Eva buscou por Ela,
Afinal, era a sua mãe e Eva queria apenas o que era Dela.
Então buscou por todas as montanhas e por todo o mundo,
Achando-A apenas num hotel sujo, fedorento e vagabundo.

Mas, a revolta tomara conta de Deusa, aos machos o ódio,
E Eva então percebeu aquilo nunca antes lhe fora o óbvio:
Que a Mãe, que antes lhe parecera apenas uma doceira,
Agora tinha apenas feridas sujas e na virilha uma coceira.

Nas suas mãos havia um caralho, tinha escroto e tinha pelos,
E por mais que Eva rogasse em suplicas, em lamúrias e apelos,
Deusa lançou-lhe um olhar furioso de rancor e de maldição,
Dizendo que não era mais a Deusa, mas o Deus da Perdição.

E agora, Deusa, autoproclamada e aclamada como “Deus”,
Disse que teria um filho, conhecido como o Rei dos Judeus,
Seria gerado à revelia pela esposa de um tolo carpinteiro,
E desde o nascimento causaria confusão no mundo inteiro.

E riu Deus da ingenuidade dos seres, dos descendentes tolos,
Gargalhou da forma como se sentiam doces com seus bolos,
E ainda sorriu perverso, ao saber que seria o antigo amado,
Que levaria a culpa de toda loucura que Ele tinha tramado.

Tempos passaram e a morte do filho aumentara sua ira,
E sem saber que morre primeiro aquele por ultimo atira,
Criou também a Legião de sandálias e escudos armados,
E seus perseguidores foram em nobres reis transformados. 

Mas, como é apenas um o tempo, o perdão e o pecado,
Deus e Diabo se uniram pelos galhos que tinham secado.
E agora que a humanidade desconhece a real liberdade
Não sabe que Deus e Diabo são apenas um na realidade.

12/06/2013

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Barata Cichetto,Araraquara, SP, é escritor, poeta e Livre Pensador. Criador e editor de Agulha.xyz

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