A Síndrome da Assepsia

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Barata Cichetto


Aqueles e aquelas acima dos quarenta anos hão de lembrar, o quanto éramos porcos e sujos. Afinal, brincamos correndo pelos matos, andamos descalços, com pedaços de madeira e com as mãos nuas cavamos cavernas em barrancos. Nossas unhas das mãoes e dos pés eram pretas de terra. Nosso futebol era em terrenos baldios cheios de sujeiras e perigos. Ou na rua mesmo, onde ao passar um pedestre o jogo era parado. Carros e seus motoristas esperavam que a gente batesse aquele pênalti. Nossos pés encardidos, depois corriam pro abraço, comemorando o gol. Éramos sujos, encardidos e imundos, mas felizes e verdadeiros.

Descalços, íamos às chácaras comprar verduras para o almoço, geralmente de um japonês que regava a plantação com água do córrego ao lado e usava botas de borracha lambuzadas de bosta de porco. À noite pulávamos a cerca de arame farpado para roubar goiabas do tal japonês. E as comíamos ali mesmo, feito passarinhos. Sem lavar… E com bicho mesmo. Caralho, como nós éramos porcos! Imundos… Ah, mas como nós éramos felizes.

Não tínhamos nenhum problema com isso, porque nossa preocupação era com a vida e com a felicidade. Preocupava-nos em termos e sermos amigos. Em regra não tínhamos problemas de infecções causadas por nossos hábitos. Éramos sujos, porcos e imundos. Mas éramos saudáveis. Corpo saudável, mas principalmente nossas mentes eram mais sadias porque tínhamos sonhos, acreditávamos mais na humanidade. O couro comia com a ditadura porque eram os Anos de Chumbo, em que militares queriam transformar o país em um grande e asséptico quartel. Mas ainda assim, acreditávamos uns nos outros e nossa fé era nas pessoas e no futuro. Éramos crianças sujas, encardidas, imundas. Mas, principalmente, éramos crianças!

Então crescemos. E o fizemos quase sem Televisão, sem Vídeo-Game, sem esterilizar nossas mentes. Crescemos. Sujos e imundos, mas crescemos e nos tornamos adolescentes. Então nos sujamos muito indo em puteiros de quinta onde conseguíamos nossos maiores troféus: gonorréia. Uma doença imunda, porca e nojenta. Doença de putas. Uma dose de penilicina e pronto. Transávamos sem camisinha e gozávamos a valer. Nosso desejo não era plastificado nem esterilizado. Credo! Éramos tão sujos a ponto de não nos importarmos em pegar gonorréia! Ah, como nós éramos imundos! Ah, mas éramos felizes, porque não tínhamos nojo das putas.

Agora entretanto somos adultos. O mundo não acabou na virada do milênio e estamos ai, perto, pouco acima ou abaixo, dos cinqüenta. Como conseguimos sobreviver, estarmos vivos depois de vivermos tanta porquice? Tanta imundice? É… Como conseguimos sobreviver a pés descalços na terra, unhas encardidas, goiabas com bicho, gonorréia, putas e sexo sem camisinha? O fato é que conseguimos viver e sobreviver porcos, sujos, imundos, mas com nossas consciências limpas porque éramos verdadeiros e humanos.

Quantas bactérias podem ser transmitidas ao falarmos em um telefone? Quantos vírus existem num espirro? Quanto ácaro existe em um tapete? Esterilize! Filtre! Álcool, éter, formol… Tudo asséptico, higiênico, limpo, muito limpo, limpíssimo e ultra limpo. Tudo plástico! Loucura hoje é falar em sexo sem camisinha. “Meu prazer agora é risco de vida.” Tudo contamina e está contaminado. Até tecido à prova de bactérias já criaram! Tudo tem que ser limpo, bonito e rápido. Mas onde existe humanidade e calor nisso? Tudo isso é muito frio! Não existe humanidade, não existe verdade, não existe sinceridade. Só existe limpeza, plasticidade e praticidade. Onde anda a felicidade?

A Síndrome de Assepsia que domina a humanidade é fruto ou semente da AIDS? Foi a partir da AIDS que se desenvolveu a Síndrome? Ou ela foi criada para dar suporte, digamos científico à esterilização? Não desacredito de uma tática nazista que criaria e usaria uma doença com firmes propósitos de tornar a humanidade mais “limpa”. Mais que a pureza racial tramada pelo Nazismo de Hitler, essa assepsia a que pretendem nos levar com a desculpa de termos uma vida “mais saudável”, enseja todo um mecanismo de dominação, bem maior que todas as outras barbaridades engendradas por doentias mentes de poderosos.

Quanto a mim, prefiro um mundo mais sujo, mas mais humano. Mais porco, mas mais verdadeiro. Mais imundo, mas mais sincero. Prefiro amores sujos à solidão limpa. Prefiro unhas sujas de terra à atrofiadas por teclados de computadores e vídeo-games. Não quero uma sociedade asséptica, que não convive e não ama por medo de contaminação.

8/17/2007

Texto escrito em 2007. Quem imaginaria que, 13 anos  depois, passaríamos pelo que passamos, com ditadores fazendo o que fazem de pior: ditar regras.. “Lavem as mãos e usem máscaras”, disseram, tudo embasado pela “Ciência” do que lhes convinham políticamente. Foi justamente nessa época que lancei o meu livro “Filosofia de Pés Sujos”. Sou limpinho, não!” (08/02/2024)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz

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