A Luz do Vagalume na Noite

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Walter Possibom


As aulas em Botucatu iriam começar, eu fui para lá num domingo, me lembro dos sentimentos que me assombraram naquele momento, eu fui criado quase sob uma determinação militar, onde normalmente minha mãe decidia tudo, por todos. Sob o aspecto das decisões minha vida era tranquila, embora sufocante.

Mas daquele momento em diante isso mudou, agora tudo era comigo, a minha vida dependia única e exclusivamente de minhas decisões e ações.
E isso me assustou muito, eu tinha medo do que eu tinha pela frente, mas a capacidade do ser humano de se adaptar às situações é espantosa, e eu consegui “sobreviver”.

Evidentemente que os seis anos que fiquei nessa “situação” foram muito importantes em me “formar” nesta estrada, essa experiência única se mostrou muito útil em diversas situações difíceis às quais passei em minha vida posteriormente.

Eu e o meu pai, na semana posterior à minha matrícula na faculdade, voltamos à cidade para encontrarmos algum lugar onde eu pudesse morar enquanto eu estudava naquela cidade.

Acabamos encontrando uma espécie de hospedagem (uso esse termo por absoluta falta de outro melhor), que estava terminando de ser construída, ela tinha um custo acessível às condições financeiras de meus pais e que ficava ao lado, praticamente, da faculdade, no Distrito de Rubião Junior, o que me isentaria da necessidade de pegar alguma condução (reduzindo os custos ainda mais).

Ela era uma construção simples, quando você entrava nela você se defrontava com um enorme corredor, e ao lado direito dele havia as portas para os quartos (eu não me recordo ao certo, mas acho que eram cinco quartos), os quais cabiam duas pessoas em cada um deles.

Ao final do corredor havia o banheiro, único, o qual servia a todos os moradores dessa construção (Depois de alguns meses eu acabei saindo de lá, pelo tempo todo que eu vivi ali ela nunca teve lotação máxima, ela foi um fracasso).

O aluguel do pequeno espaço, de cerca de doze metros quadrados (para duas pessoas), iria me garantir duas refeições por dia, o almoço e o jantar, que seriam feitos no restaurante mais acima de onde se localizada essa hospedagem, pois o dono dessa habitação também era dono desse restaurante.

Naquele lugar havia também um posto de combustíveis e um bar, onde por vezes íamos tomar café, chamado de “Chumbão”, onde o dono do posto fazia uma “calibragem” matinal especial com uma cachaça chamada “Prata” (nós realmente tomávamos apenas café, tínhamos medo de tomar a tal cachaça pelos efeitos que víamos dela nas pessoas que faziam de seu uso).

Nós domingo antes da semana de início das aulas, eu e minha família chegamos à Botucatu um pouco antes da hora do almoço, fizemos um pequeno passeio pela cidade, e pelo meio da tarde minha família resolveu voltar para casa.

Eu tenho esse momento gravado em minha memória até hoje: o carro se afastava lentamente eu estava estático na beira da pequena estrada olhando a silhueta dele sumir logo na primeira curva. Confesso que tive vontade de correr atrás dele e pedir para que me levassem junto de volta para casa.

Após um tempo eu resolvi voltar para a hospedagem, entrei em meu quarto e sentei na cama, ali eu fiquei buscando forças para continuar a minha nova jornada.

No meio da noite, de repente, a porta do quarto se abriu e um garoto de feições orientais apareceu por ela, me cumprimentou e se apresentou: ele era o Juca (nome fictício).

Ele seria o meu companheiro de quarto. Fiquei sabendo, depois, que ele era originário de uma cidade que fica quase na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, próximo à cidade de Andradina, no interior de São Paulo.

Olhando para ele era evidente que havia algo de errado com ele, a sua cabeça era disforme em seu alto, assim que ele entrou no quarto percebei claramente que uma de suas pernas era curvada e menor que a outra, ele andava com certa dificuldade e com alguma lentidão, além disso, seu olhar era estranho, às vezes parecia estar mirando o infinito, e a sua fala era igualmente estranha, às vezes eu não conseguia entender o que ele falava.


A seguir entraram os seus pais, que gentilmente me cumprimentaram, todos muito sorridentes e corteses.

O Juca era um garoto “veterano” na faculdade, porém ele estava vindo a Botucatu para voltar a cursar algumas matérias do segundo ano de faculdade. Ele estava afastado dela por cerca de cinco anos (não me recordo com precisão desse tempo, se este não é o correto ele está muito próximo do real).

Ele me contou que a cerca de cinco anos (novamente a data incerta, ou não), após uma sessão de bebedeira, ele e um amigo de turma (eles estavam no segundo ano da faculdade de medicina) estavam voltando para Botucatu quando o carro em que viajavam, em alta velocidade, sofreu um grave acidente.

Do que ele se recordava desse dia, o carro em que estava como passageiro, um fusca, estava tão rápido que num local onde a estrada tinha uma depressão o carro simplesmente saiu do controle do motorista, e com isso ele acabou capotando várias vezes.

O Juca foi ejetado para fora do carro e em virtude disso veio a sofrer um trauma craniano bastante severo que o deixou em coma por várias semanas, ele ficou internado no próprio hospital da faculdade.

Quando ele se recuperou do coma e das lesões, constatou-se que ele ficou com várias sequelas, que teriam que ser “trabalhadas” por um longo tempo, por isso, assim que ele recebeu alta do hospital ele voltou à sua cidade para fazê-las ao lado de seus familiares. Ele trancou sua matrícula para que pudesse voltar depois de realizar as fisioterapias e continuar com a faculdade.

Após cerca de cinco anos de muita fisioterapia ele estava voltando para a faculdade, mas as sequelas ainda se mostravam bastante vivas.

Porém, infelizmente, uma das sequelas era insuperável: ele tinha enorme dificuldade de atenção e de memória, a sua mente já não funcionava mais como antes, ela estava seria e definitivamente danificada.

Conforme as aulas da faculdade corriam para ele, aos poucos, Juca foi percebendo que seu cérebro havia perdido a capacidade de captar e reter qualquer outro conhecimento além dos que ele já havia recebido.

Certo domingo ele não apareceu no quarto (ele voltava todos os finais de semana para sua cidade), eu fiquei preocupado com isso, pois já éramos grandes amigos e pensei que podia ter ocorrido algo com ele.

Na segunda feira seguinte, assim que eu voltei da faculdade, diante da hospedagem eu vi o carro do pai dele, meu coração acelerou muito, assim que eu entrei no quarto ele estava de pé me esperando, as suas coisas já não se encontravam mais no quarto ele olhou para mim, ficamos nos encarando em silêncio, parados a um metro um do outro, e após um tempo ele sorriu e me disse:

– Infelizmente eu não consigo.

Ele não precisava falar mais nada para mim, ele foi muito claro. Eu fui tomado por um sentimento de profunda tristeza, minhas pernas fraquejaram, eu não consegui falar nada para ele, a dor me tomou de forma muito intensa. Eu torcia muito por ele. Era o fim de seu sonho de se tornar médico.

Eu fui até ele e nos abraçamos, e choramos. Ele foi embora e nós não trocamos palavra alguma, nem precisava. Eu me senti como se tivesse perdido alguém muito querido da minha família. De aquele dia em diante, por várias vezes, quando eu chegava ao meu quarto após o dia de aula eu sentava em minha cama e ficava olhando para onde ficavam as coisas dele, demorei um pouco para aceitar tudo o que tinha acontecido e de que daquele momento em diante eu estaria sozinho naquele quarto e que eu havia perdido um grande amigo. Pela segunda vez em minha vida eu briguei com Deus.

Eu nunca mais tive qualquer notícia dele, na confusão eu acabei me esquecendo de pedir o endereço dele, mas eu espero, com todo o meu coração, que ele tenha conseguido encontrar uma atividade compatível às suas limitações, e que a felicidade tenha inundado seu coração.

Já bastava o peso pelo ato impensado que ele teve, junto ao seu colega de turma (que quase nada sofreu no acidente), e que resultou naquela tragédia.

A dor não acometeu apenas o Juca, mas muitas pessoas ao entorno dele que o amavam.

Minha turma era composta por noventa alunos, que vinham de várias partes de nosso estado, de outros estados e até de outros países, dentre eles estava o João (nome fictício).

Um garoto de uma inteligência impar, de uma docilidade incrível, mas certamente de uma mente confusa.

Ele se portava de forma distante às vezes, como se ele entrasse em outro mundo, ele não tinha o hábito de se aproximar muito de nós, as conversas que tinha conosco eram sempre muito rápidas e à certa distância, nas aulas de anatomia humana ele mantinha-se longe dos cadáveres, nos dizia que tinha medo deles.

Ele era uma pessoa muito dócil, seu rosto, assim como as suas expressões, era juvenil, nas aulas teóricas ele ficava quieto em sua cadeira, mas nas aulas práticas, e principalmente nas aulas de anatomia humana ele ficava inquieto, andava incessantemente por entre as mesas onde estavam os cadáveres, os quais observava a distância sem jamais os tocar.

Nós ficamos sabendo que ele tinha um laboratório em sua casa, que ele simplesmente amava, e ali passava várias horas por dia realizando vários experimentos com as suas substâncias químicas, sempre que voltava da faculdade.

Certo final de semana, eu acho que num domingo, ele conseguiu sintetizar, pelo que soubemos de seus familiares, uma boa quantidade de cianeto de potássio nesse seu laboratório, e o ingeriu todo.

Recebemos a notícia de sua morte como se estivéssemos recebendo um choque elétrico de alta voltagem, a turma toda ficou muito abalada com isso, jamais pensávamos que ele pudesse fazer isso, em que pese o seu comportamento “estranho”.

Conforme as aulas da faculdade corriam para ele, aos poucos, Juca foi percebendo que seu cérebro havia perdido a capacidade de captar e reter qualquer outro conhecimento além dos que ele já havia recebido.

Certo domingo ele não apareceu no quarto (ele voltava todos os finais de semana para sua cidade), eu fiquei preocupado com isso, pois já éramos grandes amigos e pensei que podia ter ocorrido algo com ele.

Na segunda feira seguinte, assim que eu voltei da faculdade, diante da hospedagem eu vi o carro do pai dele, meu coração acelerou muito, assim que eu entrei no quarto ele estava de pé me esperando, as suas coisas já não se encontravam mais no quarto ele olhou para mim, ficamos nos encarando em silêncio, parados a um metro um do outro, e após um tempo ele sorriu e me disse:

– Infelizmente eu não consigo.

Ele não precisava falar mais nada para mim, ele foi muito claro. Eu fui tomado por um sentimento de profunda tristeza, minhas pernas fraquejaram, eu não consegui falar nada para ele, a dor me tomou de forma muito intensa. Eu torcia muito por ele. Era o fim de seu sonho de se tornar médico.

Eu fui até ele e nos abraçamos, e choramos. Ele foi embora e nós não trocamos palavra alguma, nem precisava. Eu me senti como se tivesse perdido alguém muito querido da minha família. De aquele dia em diante, por várias vezes, quando eu chegava ao meu quarto após o dia de aula eu sentava em minha cama e ficava olhando para onde ficavam as coisas dele, demorei um pouco para aceitar tudo o que tinha acontecido e de que daquele momento em diante eu estaria sozinho naquele quarto e que eu havia perdido um grande amigo. Pela segunda vez em minha vida eu briguei com Deus.

Eu nunca mais tive qualquer notícia dele, na confusão eu acabei me esquecendo de pedir o endereço dele, mas eu espero, com todo o meu coração, que ele tenha conseguido encontrar uma atividade compatível às suas limitações, e que a felicidade tenha inundado seu coração.

Já bastava o peso pelo ato impensado que ele teve, junto ao seu colega de turma (que quase nada sofreu no acidente), e que resultou naquela tragédia.

A dor não acometeu apenas o Juca, mas muitas pessoas ao entorno dele que o amavam.

Minha turma era composta por noventa alunos, que vinham de várias partes de nosso estado, de outros estados e até de outros países, dentre eles estava o João (nome fictício).

Um garoto de uma inteligência impar, de uma docilidade incrível, mas certamente de uma mente confusa.

Ele se portava de forma distante às vezes, como se ele entrasse em outro mundo, ele não tinha o hábito de se aproximar muito de nós, as conversas que tinha conosco eram sempre muito rápidas e à certa distância, nas aulas de anatomia humana ele mantinha-se longe dos cadáveres, nos dizia que tinha medo deles.

Ele era uma pessoa muito dócil, seu rosto, assim como as suas expressões, era juvenil, nas aulas teóricas ele ficava quieto em sua cadeira, mas nas aulas práticas, e principalmente nas aulas de anatomia humana ele ficava inquieto, andava incessantemente por entre as mesas onde estavam os cadáveres, os quais observava a distância sem jamais os tocar.

Nós ficamos sabendo que ele tinha um laboratório em sua casa, que ele simplesmente amava, e ali passava várias horas por dia realizando vários experimentos com as suas substâncias químicas, sempre que voltava da faculdade.

Certo final de semana, eu acho que num domingo, ele conseguiu sintetizar, pelo que soubemos de seus familiares, uma boa quantidade de cianeto de potássio nesse seu laboratório, e o ingeriu todo.

Recebemos a notícia de sua morte como se estivéssemos recebendo um choque elétrico de alta voltagem, a turma toda ficou muito abalada com isso, jamais pensávamos que ele pudesse fazer isso, em que pese o seu comportamento “estranho”

Todos em nossa classe o adoravam e tinham por ele um enorme carinho, foi uma enorme perda para todos nós. Fomos todos ao seu velório e enterro, o dia estava enevoado, frio, a cor cinza pintava tudo ao nosso redor e as nossas mentes também se sentiam plúmbeas.

A viagem tanto de ida como de volta à sua cidade foi feita com todos calados, e com os nossos olhos voltados ao infinito, tentando entender o que tinha acontecido.

Todos nós éramos muito jovens, não conseguíamos conceber tal ato, principalmente de alguém que vivia tão próximo a nós.
Passaram alguns dias até que conseguimos deglutir tudo aquilo e voltar à nossa rotina.

Após essa ocorrência quando eu andava pelos corredores do hospital pensava em quantas pessoas já passaram por ali, e que de certa forma, elas podiam ter deixado algum rastro no ambiente, pois eu me sentia de diversas formas diferentes quando passava em certas áreas.

Eu passei a pensar também que esse meu amigo pudesse também ter deixado a sua “energia” nos lugares onde nós caminhávamos, quem sabe?
Hoje eu sei de vários colegas que já retornaram à nossa Pátria Espiritual, um grande amigo se foi por um trágico acidente de carro que quase vitimou o seu filho também, outro foi por homicídio, outro cometeu suicídio, e nós, que ainda aqui estamos, vamos aguentando todas essas más notícias com sofrimento e resiliência.

A vida é como uma folha de seda, tênue, frágil, a qual nós devemos tratar com muito carinho, respeito e dedicação, além de um extremo cuidado.
Vi muitas pessoas serem internadas em estados críticos porque acabaram abusando de coisas que podiam ser evitadas, as quais levaram a um extremo desgaste de nosso organismo provocando doenças, muitas das quais fatais.

Às vezes eu ouço de pacientes como eles tratam muito mal o seu próprio corpo, e que mesmo sabendo que as suas atitudes são danosas eles não fazem nada a respeito para mudar essa história.

Vejo, muitas vezes, as pessoas usarem a usa vida pessoal como um suporte ao seu trabalho, quando na realidade deve ocorrer exatamente o contrário, elas vivem para o trabalho, e se der, tentam aproveitar um pouco as suas vidas.

– Eu tenho várias bocas para sustentar.
– Eu preciso trabalhar.
– Eu tenho muitas contas para pagar.
– Eu gosto de trabalhar.

Ouço todo dia esse tipo de resposta, e quando eu pergunto sobre o que elas pretendem de suas vidas, elas me respondem:

– Quando eu me aposentar irei usufruir de tudo isso.
– Aí eu terei tempo para mim.

Pois é, o pior é que muitas irão usufruir disso numa cadeira de rodas, ou com metade do corpo paralisado, com várias formas de dificuldade de locomoção, e em alguns casos, na dependência de outras pessoas até mesmo para a sua higiene íntima. E os filhos? Como ficam os filhos?

Bem, aí as respostas são as mais variadas possíveis, mas eu sei ao certo que quando eles estão dormindo os seus pais saem para o trabalho, e quando voltam os seus filhos já estão na cama. Eles acabam se tornando estranhos em sua própria casa.

Os Blackfoot são uma tribo de nativos americanos que viviam ao noroeste de Montana, por volta dos séculos dezessete e dezoito, tinham uma definição sobre a vida que é fantástica:

O que é a vida?
É a luz de um vaga-lume na noite.
É o sopro de um búfalo no inverno.
É a pequena sombra que corre pela grama e que se perde com o pôr do Sol.

A nossa vida é efêmera, dentro do tempo infinito da criação, é isso que esses “selvagens” querem nos dizer.

Claro que temos incontáveis oportunidades de aqui estar, voltar e continuar com a nossa evolução, mas devemos aproveitar todos esses momentos, jamais devemos deixar para depois aquilo que se nos apresenta neste momento.

Devemos aproveitar cada ínfimo pedaço de tempo que temos para a nossa edificação e relação com os demais seres.

Precisamos ter cuidado com as atitudes que tomamos em nossa vida, pois elas podem nos causar dores e dissabores que jamais poderão ser desfeitos e com isso acabar com os nossos sonhos.

Temos que ser responsáveis com as nossas atitudes, pois elas podem, também, afetar outras pessoas, e nós não temos esse direito.
Temos que ter objetivos claros em nossa vida, senão o caminho é incerto e ele poderá nos levar ao abismo.

Sempre que nós atingirmos o nosso alvo, imediatamente, temos que criar outro alvo, senão, igualmente, iremos nos perder em meio à neblina causada pela satisfação da missão atingida. Se não agirmos assim as nossas mentes ficarão vazias, e por ali poderão transitar pensamentos ruins.

A todos os meus amigos que já se foram, recebam de mim todo carinho, e saibam que estão em minhas preces, onde peço ao nosso Pai Maior que os aliviem de seus sofrimentos, e que assim continuem serenos, em sua longa jornada em direção à Casa de Nosso Pai Maior.

Todos nós estamos caminhando nessa direção, e quando todos estivermos nela iremos festejar essa conquista, principalmente por ali termos conseguido chegar livres de todas as nossas limitações e distúrbios, para vivermos a vida eterna dos justos.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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