A Festa

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Barata Cichetto


Acabou a festa que nem começou. Resta a ressaca do que não bebi. Acordei pelado. Nem lembro de ter tirado a roupa. Bebi? Creio que tanto que nem lembro. Não sei se pinto um quadro. Escrevo uma poesia. Volto pra cama. Ou calço meus chinelos gastos. E vou andar pelas ruas proibidas. Não sei se fico ou se saio. Se pinto ou se bordo. A bordo de mim mesmo. Não sei se compro uma lata de veneno. Ou abro a cabeça de um desgraçado ao meio. Nesta cidade sem coração. Não sei se me eviscero. E para ser sincero. Nem sei de mim. Das minhas tripas sangrentas. Nojentas. Tenho dores nas penas. Nos braços. Na cabeça. E no pau. Que mal há. Em chamar de pau o que chamas de pênis? Afinal. O que há de bom em ficar velho? Ficar só? Pintar. Borrar. Lambuzar. Sujar. Quero colocar meus pés sujos na estrada. E sumir na poeira. Como um velho marginal. Que não tem eira nem beira. Quero conhecer o túmulo de Quintana em Porto Alegre. Há tempos. Há tempos existe o tempo. Há tempo. Já pensou em morrer? Foi no tempo passado? Como tem passado? Quero ler “Relatos da Existência Caótica” do Pessoa. Sobre o túmulo de Rimbaud. Quero escutar “Murder Most Foul” bem alto, com a história de um crime hediondo. Quero trocar poesia por dinamite. Sexo por poesia. Morri aos quarenta e dois. Tem vinte e um anos que não morro mais. Nem menos. Tenho saudades. E nem digo. Que sou calado. Até o amanhecer. E o que vou fazer? Depois de terminar de escrever? Morrer? Eu ainda nem comecei. Lizzy Borden miando. Quer afago. E eu não largo meu palheiro. De lado. Acabou? Nunca começou. Gozou? Nem comecei. E agora? Senhora dona da casa? Traga o ferro em brasa. Não quero nem bolo. Bolo de dolo. Traga seu desejo até minha cama. Te quebro no meio. E acerto um soco nos teus olhos lacrimejantes. Mas antes. Me deixa pensar o que faço. Se pinto um borrão. Se escrevo um poema sem nexo. Ou se faço sexo com quem só quer chorar. Depois eu conto. O final desse conto. Sem ponto. Final

26/06/2020

Do Livro:
Pornomatopéias
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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