Foto: Art by Barata

A Fábula do Pequeno Pinto Amarelo, da Grande Cadela Branca e da Pequena Gata Cor-de-Rosa (Ou: Uma História de Merda)

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Barata Cichetto


Era uma vez um dia, para ser mais exato uma noite escura e fria, em que um Pequeno Pinto Amarelo, congelando piava da dor que o frio e solidão lhe causavam. Mas o Pequeno Pinto Amarelo ainda nem podia imaginar o que o futuro reservara.

Em um dado momento uma Grande Cadela Branca com pintas nas pernas, caminhando com graça e doçura chegou perto. O Pequeno Pinto sentiu-se feliz, pois teria companhia e calor e ergueu-se todo, feliz. Mas a Grande Cadela Branca chegou perto e soltou uma bela cagada sobre o Pequeno Pinto Amarelo e depois de alguns latidos, saiu andando afim de fazer suas cagadas pelos parques e postes da cidade, talvez cagando sobre outros pequenos pintos amarelos.

O Pequeno Pinto Amarelo primeiro muito incomodado com o cheiro da bosta e indignado com a atitude da Grande Cadela Branca, começou a sentir-se bem, pois o calor da merda aquecia seu corpinho e seu espírito congelados. Aos poucos foi sentindo-se bem acomodado, até que começou a piar, ninguém sabe se de tristeza pela acomodação á merda ou de alegria por estar aquecido do frio que seu corpo e seu espírito sentiam.

Nesse momento entra em cena a ardilosa Pequena Gata Cor-de-Rosa, uma gata angorá, raça felina ferina, sempre com seu rabo empinado. O monte de merda piante chama a atenção da Pequena Gata Cor-de-Rosa e ela logo deduz, usando seu instinto felino e selvagem que ali se esconde um lauto jantar. Lambe sensualmente os lábios pintados de batom cor-de-rosa e sofregamente revolve o monte de merda, descobrindo nosso Pequeno Pinto Amarelo, que de asas abertas está pronto a agradecê-la por ter sido retirado da merda.

Mas nosso Anti-Herói, o Pequeno Pinto Amarelo, nem tem tempo de dar um pio sequer, pois a Pequena Gata Cor-de-Rosa com uma pinta na perna direita, pequenas patas e uma cicatriz na testa o engole em uma só bocada e depois sai abanando o rabo a procura de outros montes de merda que escondem outros belos e suculentos pequenos pintos amarelos, ou, quem sabe, outras Grandes Galinhas Douradas.

Moral da História: Nem todo mundo que lhe põe na merda é seu inimigo; nem todo mundo que lhe tira da merda te ama. E principalmente, mesmo quando estiver na merda não dê um pio, fique de bico calado.

Adaptado de uma antiga fábula urbana que circulava datilografada pelos escritórios e botecos, por Luiz Carlos Cichetto

02/01/2006

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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