Foto: Pexels - Loc Dang

A Dura Estrada da Vida

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Walter Possibom


Charles caminha pela noite, ele vai de poste em poste, se segura como pode nele, o álcool tomou conta de todo o seu cérebro, mais uma vez, e ele tenta voltar para casa, uma chuva torrencial se mostra a frente, o vento sopra forte, ele mal consegue enxergar o caminho, a rua estava vazia, devia ser madrugada, após muito esforço ele consegue chegar a sua casa.

Ele tem uma enorme dificuldade em abrir a porta, somente depois de muito esforço ele consegue, e assim que a porta se abre ele cai dentro de sua casa, ele estava se escorando na porta, imediatamente a sua esposa, que o esperava sentada no sofá da sala, corre e o ajuda a se levantar.

A princípio Charles recusa a ajuda dela, a empurra, mas Maryan, com muito carinho o levanta mesmo assim, leva o marido até o sofá e o ajuda a se ajeitar ali, depois que se certifica que ele esteja seguro ela vai até o quarto e pega uma roupa limpa e a deixa no banheiro.

Ela pega o marido, agora mais dócil, e o carrega até o banheiro e o ajuda a tomar um banho, era tudo muito difícil, pois Charles era um homem maior que Maryan, depois do banho ela o ajuda a se trocar e em seguida o leva até o sofá, ele se deita, ela então vai à cozinha e faz um café forte, pega meia xícara dele, sem açúcar, e o leva ao marido que bebe a bebida com muita dificuldade e relutância.

Após tomar todo o café ele se deitar no sofá, Maryan fica ao lado dele acariciando os seus cabelos, olha para ele com muito pesar, ela sofre mais do que ele, de seus olhos algumas gotas de lágrimas saem e escorrem por sua face, e após algum tempo ela vai ao quarto deles pega um cobertor e cobre o marido com ele, ela vai a poltrona ao lado senta nela e ali ela passará o resto da noite velando pelo marido.

Charles e Maryan se conheceram num verão, eles eram jovens, tinham por volta de vinte anos, foi amor a primeira vista, ela trabalhava no Setor Financeiro de uma grande indústria, ele trabalhava na Bolsa de Valores, e naquele dia de verão eles foram almoçar no mesmo restaurante e ali se conheceram.

Charles sempre se lembrava de como isso aconteceu:

Eu entrei aquele dia no restaurante com uma fome danada, eu estava com os meus amigos de trabalho, o pregão daquele dia tinha terminado e nós não tínhamos nos dado muito bem com os negócios, mas isso fazia parte, então decidimos que o nosso almoço, pelo menos, seria bom, por isso fomos àquele restaurante um pouco longe de onde trabalhávamos.

Entramos felizes no restaurante, em que pese a derrota que tivemos, escolhemos uma mesa onde nós pudéssemos ficar a vontade, e quando eu me sentei vi que na mesa de frente a mim havia uma garota linda, ela tinha um sorriso maravilhoso, encantador, ela estava sentada junto a outras duas garotas, as três pareciam estar se divertindo muito e eu fiquei olhando elas conversando, acabei me desligando dos meus amigos, um deles porém, se virou e viu as garotas, então ele brincou comigo por isso.

Eu voltei o meu foco para a conversa com meus amigos, mas eu não conseguia tirar os meus olhos de cima dela, até que, em certo momento, ela me viu, imediatamente ela ficou séria, nós ficamos nos olhando até que ela sorriu para mim e eu sorri para ela, dali em diante nós conversávamos com os nossos amigos, mas ao mesmo tempo ficávamos olhando um para o outro, num dado momento ela se levantou e foi em direção ao banheiro, eu a acompanhei até o local, e assim que ela entrou eu pedi licença aos meus amigos me levantei e fui ao banheiro masculino que fiava ao lado do banheiro feminino.

Eu caminhei muito devagar, eu olhava para trás para vê se os meus amigos estavam me acompanhando, mas que nada, eles estavam conversando entre eles, eu não queria que eles me vissem que eu estava realmente interessado naquela garota.

Eu nem sei por que isso, mas tudo bem.

Eu então desvio um pouco o meu curso, a minha intenção era a de cruzar com ela, e nesse momento eu pensaria no que fazer ou dizer a ela, então eu fui até a ponta do balcão chamei pelo Barman e pedi a ele uma dose de Jack Daniels, isso seria rápido e daria o motivo para a minha saída da mesa, assim que ele colocou o copo sobre a mesa a garota saiu do banheiro, eu peguei o copo e sai correndo em sua direção, mas sem que ela percebesse, então eu fiz a primeira coisa que me veio em minha mente: esbarrei nela!

Ela ficou atônita com isso, me pediu inúmeras desculpas, ela quase havia derrubado a minha bebida, mas que está feliz por dentro, havia conseguido chamar a atenção dela, então tentei acalmá-la, dizendo que estava tudo bem:

– Está tudo bem, espero que você não tenha se machucado.

Ela sorriu para mim e respondeu:

– Comigo está tudo bem, mas eu quase derrubo a sua bebida, me perdoe a distração.
Eu respondi:

– Na realidade eu é que tenho que pedir desculpas, eu que bati em você, eu estava distraído.

– Ainda bem que estamos bem.

– Mas que falta de delicadeza a minha: meu nome é Charles.

Ela imediatamente me respondeu:

– O meu é Maryan.

Então ficamos ali por um bom tempo conversando, nos olhávamos fixamente nos olhos, trocamos os nossos telefones e voltamos para as nossas mesas, mas no resto do almoço não tirávamos os olhos um do outro, os meus amigos perceberam e tiraram uma onda comigo, e imagino que as amigas dela também o fizeram, pois algumas se atreviam a olhar para mim.

No dia seguinte eu liguei para ela antes do almoço e a convidei para almoçarmos juntos, ela aceitou sem pensar.

Pouco tempo depois nós começamos a namorar, e a minha vida mudou bastante, os meus pensamentos mudaram, eu passei a focar no futuro, coisa que antes eu nem me preocupava, claro que eu fazia as minhas aplicações financeiras, mas nunca com o pensamento de futuro, de verdade.

Dois anos depois de se conhecerem os dois resolvem compartilhar um ninho juntos, e então eles se casam, vão morar numa casa num bairro tranquilo próximo ao centro da cidade, ali eles vivem um sonho, eles se amavam muito, Charles era um homem muito afetuoso, muito carinhoso com ela, não deixava com que nada faltasse em casa, e principalmente para ela.

Eles se divertiam muito, almoçavam todos os dias juntos com os amigos, era uma festa, e após o expediente voltavam juntos para casa, se divertindo como se fossem dois adolescentes, a juventude em suas mentes falava mais alto que tudo.

A vida seguia maravilhosa para eles, e dois anos após se casarem Maryan começa a sentir-se mal, ele a leva a um médico que conclui, com base em alguns exames de laboratório, que ela estava grávida, isso deixa os dois numa alegria quase sem fim.

Mai tarde, num dos primeiros exames ultrassonográficos eles ficam sabendo que Maryan estava grávida de um garoto, isso deixa Charles numa euforia sem igual, ele amava crianças, mas ter um filho era demais para ele, desse dia em diante ele muda muito, sorri o tempo todo, e sempre fala do filho que estava para vir.

Ele começa a construir o “castelo” onde o seu príncipe irá morar, a casa deles tinha dois quartos, então eles começam a montar ali o quarto do filho que teria o nome de Phillipe por escolha consensual entre o casal.

O restante da gestação corre de forma segura e calma, Charles acompanha Maryan em todas as consultas médicas, o dia calculado como do nascimento do filho se aproxima, a ansiedade cresce no peito dos dois amantes, Charles cuida de Maryan como se ela fosse feita de vidro frágil, o amor dele por ela cresce em proporções gigantescas a cada dia que passa.

O obstetra faz a última consulta antes do nascimento, a gestação ia muito bem, a mãe estava ótima e o filho também, assim que eles saem da consulta Charles decide deles irem jantar no restaurante onde eles se conheceram, e ali eles fazem uma boa refeição, porém Charles exagera um pouco na bebida, ele estava feliz, e nunca tinha passado do limite com a bebida, mas naquela noite ele resolve beber um pouco a mais, nada que comprometesse seriamente o seu raciocínio, mas ele sente um pouco o efeito do álcool a mais que havia bebido, eles então decidem ir embora.

Eles entram no carro e Charles continuava eufórico, ele tinha visto o bebê dentro da barriga daquela que ele amava muito através do ultrassom, devido a bebida ele dirige de forma vagarosa, ele tem clareza de que o álcool que ingeriu poderia causar problemas, então ele presta bastante atenção no trajeto e dirige com cautela, nos cruzamentos ele os atravessa após olhar insistentemente a todos os lados, e assim ele vai para casa.

Porém, num dos semáforos que ele passa, onde o sinal estava aberto para ele, bem no meio do cruzamento, e sem que ele visse, pois tudo foi muito rápido, outro veículo, em altíssima velocidade, e dirigido por um adolescente completamente drogado, colide com o dele.

O impacto lateral foi tremendo, resultando no capotamento do carro do casal, o carro fica com as rodas para cima, algumas pessoas ligam para o resgate que logo chega, e apesar da dificuldade em retirá-los de lá isso é feito num tempo relativamente curto.

Assim que os dois são tirados de dentro do veículo eles são levados para o Hospital, Maryan foi a mais atingida, e assim que eles dão entrada na emergência ela é avaliada por um ultrasom para verificar a integridade do bebê, e infelizmente ele estava morto, com o impacto a placenta se descolou interrompendo o fluxo de sangue com o oxigênio vital para o bebê, que causou a interrupção de sua vida.

Somente no dia seguinte é que Charles fica sabendo do que tinha acontecido ao seu filho tão desejado, e isso lhe causa uma dor tão profunda em seu peito que ele entra em desespero, e obriga a que o médico lhe dê um sedativo, a dor era insuportável.

Maryan sofre também, mas ela consegue superar com menos dificuldade, ela se apega a sua religiosidade, mas Charles não se ligava “nessas cosias”, então para ele tudo fica muito mais difícil.

Quanto ao veículo causador do acidente a Polícia descobriu que ele havia sido roubado, após o impacto o veículo ainda rodou quase meio quarteirão e se incendiou, quando a Polícia chegou no local ela não pode fazer nada quanto aos ocupantes, porém depois que o Corpo de Bombeiros chegou e apagou o fogo constatou-se que não havia ninguém no interior do veículo, os possíveis ocupantes deixaram o veículo antes que ele fosse tomado pelas chamas.

Como o veículo parou num ponto cego para as câmeras de segurança de trânsito eles não puderam ser identificados ou sequer observados, como as testemunhas também não foram eficientes neste relato o caso ficou como um acidente com um causador desconhecido e o caso nunca foi para um júri.

Após quatro dias de internação os dois recebem alta médica, Charles não parecia ser o mesmo homem feliz, que sorria o tempo todo, ele sai daquele hospital um homem sem feição no rosto, parecia que ele tinha perdido a sua alma, parecia que ele estava sem vida, ele não consegue mais trabalhar, não conseguia se concentrar no serviço, então ele é afastado, com isso a bebida lhe vem como “solução”, e passa a dialogar com ela e com as sombras.

Desse dia em diante Charles nunca mais voltou a ser o mesmo, afastado do seu trabalho pela depressão de que foi tomado e pelo imenso sentimento de culpa, foi afastado do trabalho por não ter mais nenhuma condição de concentração ou de raciocínio, isso o deixa em casa o dia todo sentado olhando para o infinito, parecia uma pessoa com a mente vazia.

De vez em quando ele “escapava” dessa prisão e, escondido de Maryan, saia para as ruas em busca da bebida, com isso ele tentava afastar um pouco a dor que o atormentava desde o incidente.

Maryan o amava tanto quanto antes do ocorrido, ela não o culpa pelo acontecido, ele sempre foi um maravilhoso marido, e seria um excelente pai, mas a vida nos prega algumas peças, o acidente interrompeu isso, tirou de Charles algo com que ele desejava muito.

Em virtude do estado emocional de Charles, que necessita de vigilância constante, Maryan teve que se afastar também de seu emprego, ela consegue uma licença sem remuneração, eles passam a viver apenas da pensão que Charles recebia pelo afastamento do trabalho, um valor bem abaixo do que eles normalmente recebiam, e isso causa transtornos financeiros aos dois, mas ela não se importava com isso, ela reduz drasticamente as suas despesas e as da casa, e ela estava pronta a passar por isso desde que tivesse o seu marido de volta.

Ela o leva ao atendimento psicológico, faz com ele todas as alternativas terapêuticas indicadas, passeia com ele, conversa com ele, ela parecia incansável. Mas não era.

Às vezes ela ficava debaixo do chuveiro e as lágrimas lhe vinham ao rosto, a dor que sentia por vê-lo daquele jeito a deixava deprimida e por vezes desesperada, tinha vez que achava que ela não conseguiria ir mais adiante, mas logo em seguida ela erguia a cabeça e seguia mais confiante ainda.

Certo dia ela estava em casa ajudando Charles a se alimentar, a campainha toca, ela se levanta vai até a porta e vê que havia um homem, uma mulher e um jovem numa cadeira de rodas à porta deles, ela não os conhecia, ela abre a porta e o homem se adianta um pouco e diz:

– A senhora se chama Maryan, esposa de Charles?

Ela responde:

– Sim, que são os senhores?

O homem então lhe diz:

– Me perdoe importuná-la, mas será que nós podemos entrar para conversar?

– Queremos falar com a senhora sobre o acidente com a senhora e com o seu marido.

Maryan fica perturbada e indecisa, então ela diz, com voz alterada:

– Como assim “quer falar sobre o nosso acidente”?

– O que o senhor tem a ver com ele?

O homem então abaixa a cabeça, volta a olhar para ela e diz:

– Nós sabemos que o carro que atingiu o veículo onde vocês estavam era um carro roubado, e que o motorista que estava dirigindo aquele carro se evadiu do local do acidente, e que ele nunca foi identificado.

– Mas eu sei quem foi o motorista que estava naquele carro naquela noite.

Isso causa um enorme choque em Maryan, ela mal podia acreditar naquilo, o acidente aconteceu há quase seis meses, como que aquele senhor sabia disso e somente agora ele veio até eles?

Automaticamente ele abre a porta e permite a que aquelas três pessoas entrem em sua casa, ela os acomoda no sofá, numa das poltronas estava Charles, que nem se deu conta da presença de pessoas estranhas, assim que eles sentam no sofá Maryan senta no braço da poltrona onde estava Charles pega-o pelo braço e diz a eles:

– Esse assunto nos incomoda muito, por favor, sejam breves.

O homem olha para a mulher e para o jovem volta a olhar para ela e diz:
– Serei o mais breve possível.

– Eu sou dono de uma grande empresa na cidade, eu tenho muito dinheiro, mas apesar disso os meus dois filhos se perderam na vida por causa das drogas.

– Numa certa noite os dois, em que pese todo o dinheiro que eu tenho, resolveram roubar um carro, se drogaram e saíram com o carro em alta velocidade e acabaram causando um desastre sem tamanho.

Nesse momento Maryan olha para o garoto na cadeira e depois para o marido, ela percebe o que tinha acontecido, e sente um enorme peso em seu peso, ela passa a se sentir muito mal, porém o homem continua:

– O meu filho mais velho que estava dirigindo saiu do carro com uma fratura no antebraço direito e algumas escoriações pelo corpo, porém o meu filho mais novo, este que está conosco hoje, sofreu uma fratura no pescoço e tornou-se paraplégico.

– Alguns amigos deles os seguiam e quando aconteceu o acidente eles pegaram os meus filhos e os levaram para um hospital antes que o carro fosse totalmente tomado pelas chamas.

– O hospital para onde eles foram levados é dirigido por amigos meus e como se tratava de meus filhos eu pedi a eles que fossem discretos, e que os tratassem deles em sigilo e que eles não fossem denunciados para a Polícia, eu sabia exatamente o que aconteceria com eles caso fossem denunciados.

– Naquele momento em que vi o meu filho paraplégico eu não conseguia vê-lo naquela situação e ainda mais preso, eu não olhei para vocês, eu apenas olhei para o meu filho.

– Eu errei, apesar de ser o meu filho ele errou e deve pagar por isso.

– No dia seguinte, um pouco mais calmo, eu fui procurar por vocês e saber o que tinha acontecido, foi quando eu soube o que tinha acontecido, e podem acreditar em mim, eu fiquei num estado depressivo intenso, cheguei a ficar desesperado, eu sou um homem religioso, e me culpei por tudo o que aconteceu de ruim naquela noite, eu carrego comigo todos os resultados desse acidente.

– foi quando eu decidi que deveria atenuar a situação, se isso fosse possível, eu sei que eu não conseguirei trazer o bebê de vocês de volta, mas quero de alguma forma minimizar tudo isso, eu sei que vocês estão em dificuldades financeiras, eu sei também que o dinheiro não irá substituir o bebê de vocês, mas eu quero ajudar.

– Meu filho esteve esses seis meses na UTI, entre a vida e a morte, somente na semana passada ele recebeu alta médica, o meu filho mais velho, depois do acidente, e quando soube que o acidente havia condenado o irmão a uma espécie de prisão em virtude de ele ter provocado o acidente, pois ele que estava dirigindo o carro, fez uso de uma dose enorme de heroína teve uma parada respiratória que os médicos não conseguiram reverter.

– Ele pagou de uma forma dura pelo que ele ocasionou.

Maryan e a esposa do velho homem choravam, a dor que as toma era enorme, ambas perderam os seus filhos nesse acidente, Maryan então se levanta e se abraça a velha senhora, e ambas choram pelos filhos perdidos.

Charles então sai de sua prisão, ele olha para o pai do jovem de cadeira de rodas e os dois se encaram, as lágrimas escorriam do rosto dos dois, ele percebe que outro pai tinha a mesma dor que ele, e que ela podia ser superada, então ele se levanta e vai até onde estava o velho homem, eles se encaram e se abraçam um chora no ombro do outro, com isso eles tentam amenizar a dor que sentiam,

Em seguia os dois homens são abraçados pelas duas mulheres, e ali as lágrimas lavam as dores do passado, permitindo a que todos reiniciassem a sua vida, livres dos tormentos que os prendiam ao passado.

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor e guitarrista da banda Delta Crucis e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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