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A Cultura Como Realidade de Cada Povo

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Walter Possibom


Quando eu era criança eu morava numa casa que ficava numa rua de terra, no final dessa rua havia uma casa muito simples, nela as pessoas não moravam por muito tempo, de tempos em tempos as pessoas se mudavam.

Certa vez um senhor veio morar nessa casa. Ele era um homem que andava curvado, provavelmente pela ação do tempo e da idade avançada, e tratava todas as pessoas com extrema educação, não havia quem passasse ao lado dele que ele não cumprimentasse sempre com um sorriso. Eu via isso acontecer várias vezes ao dia porque eu ficava na rua jogando futebol com os meus amigos.

Certo dia eu estava saindo da casa de um primo meu que morava ao lado dessa casa e passei diante dela bem devagar, o homem estava sentado à frente da porta de entrada mexendo com algo, à distância eu não conseguia distinguir. Eu fiquei atrás de uma coluna que ancorava o portão de entrada e fiquei olhando o homem “trabalhar”.
Após um tempo ele sorriu olhou em minha direção e me disse:
— Venha cá.

Eu fiquei envergonhado, pensava que estava bem escondido e que não poderia ser visto, mas eu estava errado, então lentamente eu abri o portão e entrei, fui até ele e vi o que se tratava: era uma estátua de uma mulher. Aliás, uma linda estátua de uma mulher que parecia ser grega ou romana.

Eu imaginava isso em virtude das descrições das indumentárias das mulheres desses dois povos nos livros que eu lia, imediatamente fiz essa comparação.
Assim que parei diante dele ele me disse:
— Gosta de escultura?

Eu era muito jovem e ainda não tinha uma definição clara de todos os meus gostos, então quase não reagi à pergunta dele, o homem compreendeu, então se virou e pegou um bloco branco. Colocou o bloco diante dele e com suas ferramentas ele começou a talhar o bloco.

Eu me sentei diante dele e fiquei olhando o homem trabalhar na peça. Aquele velho homem quase calvo, com poucos cabelos nas laterais da cabeça e quase todos brancos, trabalhava na peça deforma bastante rápida, e logo pude perceber que ele estava esculpindo outra mulher, eu fiquei impressionado e encantado com aquilo. O homem conseguia transformar um simples bloco de gesso numa imagem perfeita de um ser humano.

Desse dia em diante, vez ou outra, eu passava na casa desse homem e ficava vendo aquela pessoa velha e tão simples criar “seres humanos” de simples blocos de gesso.
Ele vendia essas estátuas a alguém (não me recordo dos detalhes), e ele sobrevivia disso, me disse que em sua vida ele foi pedreiro, e que nunca teve a oportunidade de viver apenas de sua arte, pois ela nunca lhe rendeu dinheiro suficiente.

Eu fiquei imaginando quanta coisa linda ele poderia ter feito se tivesse a oportunidade de trabalhar exclusivamente com a sua arte, ao mesmo tempo em que hoje fico imaginando quantos artistas verdadeiros poderiam “entregar” trabalhos artísticos maravilhosos se tivessem uma oportunidade para isso. Eu me lembro do meu primeiro professor de música, um músico multi-instrumentista, e que tocava esses instrumentos de forma absolutamente maravilhosa, era um homem de extremo talento.

Ele morava num apartamento alugado mito pequeno perto de casa e não tinha carro. Evidente que casa e carro não são meus critérios para classificar uma vida como boa, mas esse homem talentoso não tinha nada disso, o dinheiro que ele ganhava era insuficiente sequer para ter um teto próprio, mesmo que fosse simples.

Eu conheci muitas pessoas nessa mesma situação: pessoas talentosas e que poderiam nos brindar com esse talento, mas que ficam obscurecidas pela falta de oportunidades.
Evidentemente que muitos desses talentos se prestam a ensinar os outros a sua arte, e que acabam sendo excepcionais professores formando pessoas talentosas que virão presentear a todos com sua arte. Mas eles são os mestres, e acabamos ficando sem a arte do mestre.

Nosso país de há muito tempo vem tolhendo a possibilidade de formarmos novos talentos, os “novos” que surgem, muitas vezes, são formados por interesses que os empurram adiante. Na área da literatura há muito tempo que não se investe nos novos escritores, para aquele que escreve e deseja ter o seu livro publicado ele tem que “meter” a mão no bolso e bancar toda a produção de seu livro, sem ter a certeza de uma divulgação e distribuição que o ajude a sequer ter o “investimento” voltar ao seu bolso. Eles ganham apenas dez por cento de direitos autorais por cada unidade vendida.

Quanto aos autores conhecidos estes não precisam investir nada, toda a produção é bancada pela editora e o artista acaba recebendo generosas percentagens em seus direitos autorais, talvez até ganhem percentuais nas vendas. Na música a coisa não é diferente, segue o mesmo esquema. Quanta banda fantástica nós temos aqui em São Paulo que fariam frente a qualquer banda internacional. A alternativa, portanto, para os novos artistas é a produção independente, o que obriga a esses artistas a terem “cash” para esse investimento.

A arte é um dos principais aspectos socioculturais das sociedades, ela muitas vezes expressa a realidade de cada povo, por isso ela é importante, não só para proporcionar experiências estéticas e sensoriais como também preservar e difundir ideologias (vide a crucial importância do Rock nos anos sessenta e setenta), assim como demonstrar concepções, hábitos e pensamento sociais. Mas para que os novos artistas tenham oportunidade há a necessidade de que tenhamos investimento e de que haja uma mudança de pensamento das pessoas envolvidas no processo de divulgação da arte.

Uma das dificuldades que entendo que exista e que dificulta isso é o fato de haver uma inferiorização do artista enquanto profissional, cujo trabalho é considerado inferior em relação ao dos profissionais tradicionais como médico, engenheiro, e outros. Isso me faz lembrar de uma música da banda Made In Brazil que está no disco “Deus Salva e o Rock Alivia” de 1985:

O Rock ‘n’ Roll Não Me Larga
Made In Brazil

Incrível que depois de quase vinte anos
Meu pai ainda reclama
Me manda cortar o cabelo e ir trabalhar
Por que será que o Rock ‘n’ Roll não me larga
Casei, tive filhos já me separei
Bem mais do que você pensa
Sempre fui desses rebeldes de arrepiar
Por que será que o Rock ‘n’ Roll não me larga
O sistema massacra e devora as pessoas
Fique frio
Não esquente com os grilos de família
O sistema massacra e devora as pessoas
A saída mais honrosa
É um tiro na cabeça ou Rock’n’ Roll.

Em que pese a letra fazer uma referência direta às diferenças entre os velhos e os jovens devemos nos lembrar de que essas diferenças se fazem pela diferença de “vida e de vivências” entre as gerações, correspondendo aos conceitos que cada uma tem em relação a determinado assuntos.

Interessante isso, e me faz lembrar uma entrevista feita com John Lennon quando ele foi questionado o porquê de ele ter dito, certa vez, que tinha medo de chegar aos trinta anos de idade, ao que ele respondeu: “Porque nessa idade os velhos se ressentem com os jovens e os jovens se ressentem com os velhos”.

Claro que hoje não vivemos apenas diferenças de opiniões e conceitos, o dinheiro está falando muito alto, mais do que em qualquer outra época.

Temos incontáveis cantores sertanejos porque por detrás deles há um produtor de carne interessado em que o filho de um amigo “vire” cantor de música sertaneja, e como esse mercado parece só crescer temos que ter a paciência de ver que esse “estilo musical” ainda vai ter muitos outros cantores e cantoras.

A produção artística em nosso país ficou muito atrelada à capacidade de gerar dinheiro, da forma o mais rápido possível, isso inviabiliza os “novos”. Outro fato importante é a falta de interesse do público.

Muitas vezes é preferível, para eles, investirem o seu dinheiro num livro de um autor consagrado e que, provavelmente, lhe trará satisfação, do que “gastar” o seu dinheiro com um autor novo o qual ele poderá não gostar, e em consequência ele terá jogado fora o seu dinheiro.

É assim que muitas pessoas pensam quando decidem por comprar um livro ou um disco. Mesmo que o livro ou o disco do “famoso” seja muito mais “alto” que o do “novo”. Muitas pessoas não se importam em “gastar” oitocentos reais num ingresso para um show de uma banda internacional, mesmo que tenha que ficar a centenas de metros distante do palco, do que “gastar” vinte reais para apoiar a cena local, ficar a um metro ao artista e, ainda por cima, poder conversar com ele. Coisas de nossa terra.

Hoje as pessoas parecem não ter interesse algum na cultura, nos últimos tempos vemos as grandes livrarias serem destruídas por falta de público, primeiro foi a Fnac, depois a Livraria Cultura e a saraiva reduzirem severamente o número de lojas, assim entramos num ciclo perigoso, pois logo estaremos sem pontos de oferta de cultura.

Eu amo os livros amo segurar um livro novo e sentir o aroma de suas páginas, sentir a textura de suas folhas, eu ainda prefiro ler um livro físico ao invés do virtual. Cada vez mais eu me acho anacrônico.

Eu acho que as pessoas não enxergam a cultura como um bem essencial e isso me soa paradoxal, pois a natureza nos ensina que tudo ocorre de forma evolutiva, do mais simples ao mais complexo.

Nós nascemos ignorantes e conforme crescemos vamos aprendendo uma grande quantidade de coisas, alguns continuam com esse crescimento até nos deixarem, outros, no entanto, terminam os estudos regulares e não mais se interessam por esse “crescimento”.Isso tudo é inconcebível para mim. Por mais que eu tente não consigo aceitar isso.

Eu não consigo compreender como paramos intencionalmente o nosso crescimento intelectual.

Isso me traz a mente uma frese de Albert Einstein:

“Tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso o universo de cada um, se resume no tamanho de seu saber.”

Eu me recuso a ter um universo pífio, aminha busca por conhecimento é infinita.

Uma estatística recente sobre os hábitos culturais dos brasileiros acusou os seguintes índices considerando-se o ano de 2019:

70% dos brasileiros não leram sequer um livro
55% não fez nenhum tipo de atividade cultural
89% não foram ao teatro
73,1% não assistiram a nenhum filme nas salas de cinema brasileiras
90% não visitam exposições de arte ou frequentaram espetáculos de dança
80,6% das pessoas não foram a qualquer show musical
78,7% dizem que o desinteresse é a falta de hábito

Esses índices me envergonham.

Quanto àquele velho homem a que me referi no início da crônica certo dia simplesmente ele foi embora, descobri isso quando fui à sua casa e ela estava com as portas abertas e dentro não havia mais nada, apenas rastros de pó de gesso. Ele simplesmente foi embora sem se despedir de mim.

Eu fiquei muito tempo pensando nele, e pedi incontáveis vezes a Deus que olhasse por ele, mas sua arte ainda hoje me enfeitiça, ela também não se despediu de mim.

Obs: há um tempo eu publiquei vários Flyers dizendo que estas crônicas seriam publicadas todas as segundas feiras, mas esta eu publiquei, propositadamente, à terça feira. Ontem e hoje eu não ouvi manifestação alguma sobre isso. Interessante.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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