A Arca do Barata – Orgia Cultural na Era Pré-Internética

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Barata Cichetto


Todos sabem da existência de uma Era Pré-Internética, mas o quem todos tem conhecimento e consciência é de que existiu uma era e que conhecimento e informação eram adquiridos de algumas formas: a primeira era através de bate-papos com amigos (Bate-papo: conversa que exigia a presença física de duas ou mais pessoas no mesmo espaço e local, que usavam a boca e o gestual para se comunicar, emitindo sons conhecidos como palavras. Não confundir com o “Chat”.)

A segunda forma das pessoas adquirirem cultura era por intermédio de livros (“Livro” = Objeto normalmente retangular composto de papel, com impressão de letras enfileiradas que, juntas formavam algo chamado “Palavras”, que umas em seqüência às outras em seqüência de sentido formavam “Frases” que transmitiam idéias, pensamentos, sentimentos, enfim a Cultura.)

Esses tais “livros” eram ordenados em estantes e salas, como se fossem gigantescos “Hard Disks”, ordenados por assunto ou autor. (“Autor”: pessoa que, baseada em conhecimentos e informações adquiridos de outros livros, vivências e sentimentos enfileiravam “letras”, “palavras”… O autor normalmente tinha conhecimento de linguagem, regras de gramática que ele aprendia em outros livros…)

Nessa tal Era Pré-Internética existia então um local, muito maior que qualquer um, mas similar, a um computador, onde esses tais livros eram guardados e onde as pessoas, ávidas por conhecimento se dirigiam. Nada parecida com “chats”, as salas das então conhecidas como “Bibliotecas” tinham cadeiras e mesas onde as pessoas em silêncio completo e absoluto liam seus livros, adquiriam cultura, conhecimento e informação.

As pessoas bebiam cultura e se embriagavam com o cheio dos livros, do papel e da tinta de impressão, acariciavam a ponta das páginas e as viravam como um amante. Uma orgia de sentidos, um bacanal cultural, êxtase total.

O autor, gráficas, papel, tintas de impressão, impressor, linotipo, chapas de chumbo. Gente, humanidade, coisas palpáveis, o perfume da tinta e do papel.

Outro local onde eram encontrados os tais livros eram lugares chamados “livrarias”. Entrar em uma livraria era mágico. Folhear um volume, sentir o cheiro, admirar a capa, depois sair com abraçado ao seu desejo, embrulhado em papel pardo. Depois chegar em casa, desnudar seu objeto de desejo e então acariciar com dedos ávidos e sentimentais as páginas brancas, devorando com a leitura uma a uma, numa comunhão entre matéria e espírito, mente e corpo, em uma relação quase erótica. Desembrulhar, desnudar; abrir, pegar, acariciar, admirar, conhecer, ler… Gozar!

Não há prazer em ler em telas de computador… Não há sentimento em leitura em telas de computador. Desliga agora! E sabe aquele livro que você usa para apoiar o prato na hora de comer em frente ao computador? Dá uma chance á ele. Tira a gordura de bife dele e experimente ler. No começo dói um pouco depois passa.

10/20/2008

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor, tem uma arca na cabeça. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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