A Arca do Barata – O Brilho do Kaleidoscópio na Era Pré-Internética

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Barata Cichetto


Em 2001 publiquei um texto falando sobre o programa “Kaleisdoscópio”, quase uma lenda, um ícone da Era Pré-Internética. Posteriormente, Jacques apareceu, entrevistado pela Poeira Zine acompanhado de Luiz Domingues e andou dando umas entrevistas e chegou parece até apresentar um programa de curta duração. E agora, ao que consta, desapareceu novamente, segundo informações preocupado em redescobrir suas raízes judaicas. De qualquer forma, deixamos nossa homenagem ao Jacques por ter sido ele o locutor e narrador da Era Pré-Internética. A seguir o texto original.

10/15/2008

--- Um Kaleidoscópio Sonoro ---

Escolha a sua trilha sonora: Premiata Forneria Marconi – “Celebration”, Focus – “House Of The King, Ufo – “Lights Out”, Black Sabbath – “Black Sabbath”, Jethro Tull – “God” e “Aqualung”, Aerosmith – “Dream On”, Iron Butterfly – “In A Gadda Da Vida”, ‘Bad Company’, do Bad Company Qualquer uma do Walter Franco ou do Jorge Mautner…

Meia noite, ao som de ‘House of the King’, do Focus ou ‘Celebration’ do Premiata Forneria Marconi ia ao ar, pela Rádio América de São Paulo, o Caleidoscópio, (ou seria Kaleidoscópio’ – como na minha cabeça?) apresentado por um sujeito misterioso de nome Jacques.

Entendendo o contexto:
– A época era o fim dos anos 70.
– Não existiam praticamente emissoras de FM, e o que existia era som ambiente.
– A Rádio América era uma rádio com programação popular de propriedade da Igreja Católica.
– Rock era coisa fechada, de grupos seletos, a mídia (especialmente a grande) o ignorava.
– Existia uma cultura realmente alternativa, com poetas querendo mudar o mundo com poemas mimeografados.
– Artistas como Walter Franco, Jorge Mautner e outros faziam shows em teatros pouco maiores que a sala da sua casa.
– Internet e Informática eram sonhos, fantasias distantes.
– John Lennon ainda pregava o sonho que se ainda podia imaginar.
– Raul Seixas ainda perambulava bêbado pelas ruas de São Paulo.
– A ditadura no Brasil ainda não tinha acabado.

É neste cenário que surge um programa de rádio apresentado por um locutor de fala mansa, sempre ‘acendendo um cigarro’, que entrevistava músicos desconhecidos, poetas mambembes (gente como Walter Franco, o poeta Nano e outros) e tocava o bom e querido Rock and Roll.

Jacques era um cara muito louco, parecido com John Lennon pós Beatles e a gente ficava acordado até as 2 da manhã (haja sono no outro dia) para escutar seus papos, entrevistas e muito Jethro Tull, Pink Floyd, UFO, Stones, Focus, Status Quo, Iron Butterfly, Premiata e outros num rádio de pilha. O programa durou muito pouco, mais ou menos um ano, se transferiu para a então Rádio Excelsior AM (que era a segunda emissora da Globo e é a atual CBN). Excelsior e Difusora, também em AM, (a Difusora era a segunda da Tupi), disputavam a hegemonia e eram as únicas rádios com programação musical.

O programa durou poucos meses ali e após algumas tentativas de pasteurização simplesmente desapareceu sem deixar vestígios. A gente passava noites girando o botão do rádio, procurando sem sucesso. Muitos boatos surgiram, como:

1) Jacques havia morrido de ‘overdose’ em pleno ar, e a emissora escondera.
2) Por causa do consumo de drogas em pleno programa teria sido sumariamente demitido.
3) Jacques teria sido seqüestrado por um disco voador.
4) Ele próprio era um extraterrestre e teria sem maiores avisos retornado ao seu planeta.
5) Jacques nunca existiu, era uma criação da mídia, uma espécie de pré-Max Headroom.
6) Idem, foi apenas fruto de minha imaginação e de algumas outras pessoas.

1/3/2001

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor, tem uma arca na cabeça. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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