A Arca do Barata – Malandros Soldados do Exército do Rock

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Barata Cichetto


Era natural na Era Pré-Internética adolescentes começarem a trabalhar ao completar 14 anos de idade. Não nos era considerado nenhum sacrifício extremo, ao contrário, porque era forma de termos algum dinheiro e conhecer outras pessoas fora dos ambientes de escola e lar. Duas necessidades fundamentais que parecem ter ficado paradas no tempo. Os significados de “dinheiro” e “amigos” eram diferentes. A nós o dinheiro era o meio não o fim e amigos eram o fim e não o meio.

Ter algum dinheiro era, por exemplo, a forma de a gente poder comprar discos de “Rock” e ir às “equipes de som” no final de semana, curtir um som. E essas duas coisas eram apenas formas de encontrarmos outros amigos, escutar novos sons… E assim por diante.

Comigo não foi diferente. Dia seguinte ao completar 14 tirei minha Carteira de Trabalho e um mês depois comecei em meu primeiro emprego, uma empresa importadora de ferramentas da Rua Florêncio de Abreu. Um perfeito tonto, sem conhecer porra nenhuma de merda alguma. Não conhecia trajetos, endereços, rotas e nem mesmo a malandragem dos moleques “escolados”. Mas, como sempre fui muito apaixonado e por conseguinte dedicado a qualquer coisa e rapidamente aprendi todos os caminhos e atalhos e a “malandragem” que consistia em comer churrasco grego e cobrar o almoço completo da empresa; ir a pé feito louco pelas ruas afim de entregar pontualmente uma encomenda para depois cobrar o táxi. Eram tão malandros quanto às crianças em fraldas de atualmente.

O resultado de tanta “malandragem” eram os últimos LPs do Deep Purple, um Compacto Simples do Creedence ou uma fita cassete do Joe Cocker. As solas dos pés ardiam ao final do dia, sapatos eram corroídas em um mês, mas o som da guitarra de Ritchie Blackmore e a voz rouca de Cocker, o cachorro louco inglês eram troféus conquistados por nós “Malandros Soldados do Exército do Rock”.

Por não existir “Correio Eletrônico” tínhamos que ficar horas em filas do Correio para despachar uma pilha de cartas, tomar três ônibus e atravessar a cidade apenas para entregar um memorando dentro de um envelope com um protocolo cuidadosamente escrito em letra caprichada de um escriturário, que aliás começara igual a nós, “Office Boy” e que era um ídolo: um dia teríamos uma promoção e então teríamos direito a uma mesa com uma máquina de datilografia e uma de calcular, à manivela; e o principal é que poderíamos usar camisas brancas com abotoaduras douradas nos punhos.

Afinal, na Era Pré-Internética, experiência acumulada tinha importância. Mas éramos garotos e tínhamos sonhos de um futuro melhor, mas nossos sonhos tecnológicos foram transformados em pesadelos cibernéticos onde não existem “Office Boys” nem cartas, apenas correios eletrônicos e escriturários cibernéticos.

11/14/2008

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor, tem uma arca na cabeça. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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