A Arca do Barata – Era da Paz e Amor, de Sexo, Drogas & Rock’n’Roll: a Era Pré-Internética.

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Barata Cichetto


Na Era Pré-Internética surgiu o conceito de equipes de baile. Um grupo de amigos que tinha muitos discos se juntava e inicialmente na sala de casa, depois na garagem e posteriormente num salãozinho de bairro, montavam as equipes. Era a época do improviso, porque a importação direta era totalmente proibida. Nem discos nem equipamento poderiam ser importados. Mas isso é apenas uma informação pertinente à época, porque a molecada não tinha mesmo dinheiro para comprar. Então, eram toca discos domésticos, caixas feitas em casa, em alguns casos com caixa de biscoitos, gravadores “mono-recorder” e muita, mais muita vontade de mostrar sons, fazer a galera curtir um bom Rock’n’Roll. Várias surgiram, muitas desapareceram. Existiram a Led Slay no Jardim Popular, o Templo do Rock e o Paraíso dos Loucos no Brás, a Fofinho – a da 2 de Janeiro não a atual – na Vila Esperança e outras que não recordo o nome agora. A única que sobrevive até hoje com o mesmo fundador, o Sandro. O resto ou acabou ou mudou de mãos e sonhos.

Uma dessas equipes, num bairro onde passei minha infância e adolescência, o Jardim Popular, era a Tarkus, que ficava no bairro vizinho. O salão era o da Sociedade Amigos de Bairro da Vila Rio Branco, Zona Leste de São Paulo, e eu sempre ia. Mas particularmente um show ficou marcado em minha mente até hoje. Uma apresentação da Patrulha do Espaço, com Percy, Júnior, Coquinho, Dudu e Waltão.

Fica também registrado minha homenagem ao trabalho daqueles que na Era Pré-Internética foram responsáveis por muita gente gostar de Rock’n’Roll. Muita gente namorou, casou… Enfim muita gente amou e se amou dentro dessas equipes, como era conveniente à Era da Paz e Amor, de Sexo, Drogas & Rock’n’Roll: a Era Pré-Internética.

O texto a seguir foi escrito em 2004, portanto 25 anos depois, época em que eu escrevia uns textos denominados “Diário de Bordo”, relatando minhas viagens com a Patrulha do Espaço, á bordo do “Azulão”.

10/21/2008

--- Diário de Bordo, Data Estelar: 31 de Março de 1979 ---

Em Março de 1979 eu tinha 21 anos e como qualquer pessoa nessa idade e principalmente ainda naqueles turbulentos e criativos anos 70, num Brasil ainda debaixo de uma ditadura militar, o que eu mais tinha eram sonhos e desilusões. Amorosas principalmente. A minha existência era dividida entre trabalhar, comprar discos e livros e ir a shows de Rock. A política era uma paixão tão forte quanto a música e os amores proibidos.

Aquele 31 de Março de 1979, data que era comemorado (comemorado entre 10 aspas) o aniversário da chamada Revolução de 64 que jogara o país em uma ditadura ferrenha, eu saíra de casa no meio da tarde com o objetivo de cumprir algumas de minhas paixões: comprar alguns discos no centro (Não, naquele ano ainda não havia a Galeria do Rock), encontrar Ângela, uma garota da noite com que eu tinha um caso arrebatador. Sai da Bruno Blois, loja onde comprava meus discos com alguns Deep Purple e Raul debaixo do braço e fui até a Rua Barão de Limeira, zona do baixo meretrício em São Paulo encontrar minha amada. Ali chegando, depois de uma crise de ciúme, tomei um sonoro e explosivo pé-na-bunda que dói até hoje.

Sai naquela tremenda fossa e fui curtir minha dor de corno num boteco próximo da antiga Rodoviária, afogando minhas mágoas em algumas belas doses de conhaque barato. Quando já me encontrava um tanto, digamos, alcoolizado, lembrei que aconteceria a apresentação da Patrulha do Espaço, que eu não via desde o show do Teatro São Pedro ainda com o Arnaldo, quase um ano antes. Peguei um ônibus e fui direto para a Tarkus, que era uma “Equipe” (Esse é o nome dado na época) que funcionava dentro de uma Sociedade Amigos de Bairro, na Ponte Rasa, Zona Leste, próximo ao bairro onde eu morava.

Cheguei ao local e fui direto para os fundos, onde existia o bar. Ali deparei imediatamente com Percy e Júnior. Aí foi que percebi o problema no braço dele e pensei estarrecido: “Porra, como esse cara consegue tocar do jeito que toca!” Acreditem que foi ali que nasceu minha admiração por ele. Fiquei ali uns instantes pensando em quanto talento natural e quanta força de superação existia naquele cara para que ele tocasse a monstruosidade que toca. Pedi mais um conhaque e ofereci a ele, mas sinceramente não me lembro se ele aceitou.

Logo depois começa a apresentação, que foi fantástica, com Percy com uma roupa de “Homem do Espaço” branca. Lembro bem que ele vestia umas polainas, algo imitando botas espaciais, mas que deixavam a mostra um tênis preto. As guitarras empunhadas ferozmente pelo Dudu e o Walter Baillot, o baixo pelo fantástico Cokinho e no fundo Júnior detonando a batera. Foi um dos únicos shows da Patrulha com o Walter, que tinha vindo do Joelho de Porco e trouxera com ele uma música que virou um dos clássicos da banda “Meus Vinte e Seis Anos” e do Percy naquela fase. Sinceramente, além desta, não recordo das outras músicas que foram tocadas, mas que eu, logo na frente do palco agitei o tempo inteiro.

Era cedo ainda, mas como a Tarkus funcionava dentro da tal Sociedade Amigos, o som tinha que acabar por volta de meia noite. Meio bêbado de conhaque e Rock’n’Roll, lembrei que tinha emprestado meio a contragosto uns discos para um amigo rolar em uma festa ali próximo e resolvi rumar para lá. Começara a chover forte e cheguei na tal festa meio ensopado e ficamos ali escutando Patrulha, Mutantes, Raul etc. (Aqui um parêntese sobre algo que esqueci de falar: os Purple e Raul que comprara a tarde acabaram ficando na casa da minha paixão e nunca mais vi, nem ela nem os discos.).

Por volta de umas quatro e tanto da manhã, resolvemos ir embora, um dos caras morava distante e fomos levá-lo de carro. O detalhe é que o banco do motorista estava quebrado e eu, sentado atrás dele, tinha que segurá-lo com os joelhos enquanto segurava os preciosos discos que havia emprestado de encontro ao peito. Para piorar, o cara que dirigia estava mais bêbado do que uma cachorra e corria um bocado. Numa das curvas perigosas, o inevitável aconteceu: a fusca amarelo capotou. Uma galera de um bar próximo correu e atrás vinha outro amigo em seu carro. Quando ele chegou perto eu estava de pé, segurando meus discos… E com a clavícula quebrada. Depois de socorrido no PS de São Miguel, a gozação que começara naquele dia e se estendera por anos: “Porra, você morre, mas não solta os discos!”.

Cheguei em casa enfaixado feito uma múmia e ainda segurando os discos. Minha mãe quase teve um treco. Portanto aquele 31 de Março de 1979 ficaria marcado para sempre em minha memória e hoje, exatos 25 anos depois, tenho orgulho em dizer que tenho em Rolando Castello Júnior um dos meus melhores amigos e à banda Patrulha do Espaço um carinho e admiração sem par. Duas semanas depois ocorreria outro show fantástico, no Teatro Pixinguinha onde o Dudu quebrou uma SG, linda no palco e teve a participação especialíssima do Manito, mas isso é uma outra história.

Apenas um adendo nessa história, para mostrar que o tempo é mesmo um alimento: no início de 2003 a Patrulha participava ao vivo de um programa na Rádio Jovem Pan e numa das ligações de ouvintes, entrou no ar um cara que estava nesse show da Tarkus, lembrando ao Júnior sobre um broche que este havia perdido e o cara havia achado e devolvido. Duas semanas depois acontecia o show da Led Slay, lançamento do .Compacto, e quem estava lá? O próprio! Coisas do tempo, coisas de uma coisa além dele, o Rock’n’Roll, meu velho!

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor, tem uma arca na cabeça. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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