A Arca do Barata – Download e Pirataria na Era Pré-Internética

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Barata Cichetto


É muito polêmica, discutida e debatida, a pirataria na Era Atual. Começou com o Napster e outros sites e programas P2P, mas o fato é o MP3 mudou a forma como a gente escuta música. E também e como se comercializa e divulga.

Mas na Era Pré-Internética também existia o nosso MP3… Não acredita? Não, não era um “Formato de Compactação de Áudio – Versão 3” ou algo parecido. Nada de digital a não ser as nossas nas fitas (Leia o verbete “Digital” em nosso Dicionário da Era Pré-Internética”), nem tinha as formas de transmissão e propagação, mas as semelhanças como verão a seguir são muitas.

Um amigo tinha uma porção de LPs e uma “Vitrola” marca “Delta” ou similar, a gente tinha um gravador Mono-Recorder marca “Aiko” ou “Crown”. Ai a loja tinha fitas cassetes marca “Scotch” – bem ruins -, “Basf” – medianas -, ou “TDK” – as melhores. Um cabo comprado na Santa Ifigênia (existia sim, mas nenhum camelô nem box de contrabando) e depois de ligar a “Delta” no “Aiko” e colocar o LP desejado no prato, começava a gravação. Um processo lento e manual, pois era preciso ficar atento pois ao terminar o Lado A do LP era preciso pausar o gravador, virar o LP e recomeçar o processo. Era tudo em “Tempo Real”, ou seja: um disco tinha mais ou menos a duração de 45 minutos incluindo os dois lados, então era no mínimo o tempo que a gente demorava para gravar uma fita. Originalmente as fitas tinham uma hora de duração, muito complicado, pois sobrava espaço para um disco e faltava para dois. Então criaram as fitas de 46 minutos (23 de cada lado) o tamanho certo para um LP e as de 90 minutos (2 lados de 45, o certo para um disco duplo ou dois discos). Lógico em que em ambas as situações era preciso também além de virar o disco, retirara fita do gravador e virar.

Atente o leitor o seguinte: claro que não era legalmente permitido copiar discos, como não é hoje, mas as fábricas de fitas cassetes pensavam em quem iria comprar seus produtos e dane-se o resto. Do mesmo que é na Era Atual: copiar música emMP3 é proibido, mas os fabricantes querem é vender CDs virgens, aparelhos para tocar etc.

Retornando ao nosso processo de MP3 da Era Pré-Internética. Com o passar do tempo, os aparelhos foram sendo sofisticados. As vitrolas mudaram, se incorporaram a amplificadores estéreos e os gravadores também em estéreo. Criaram então aparelhos denominados “2 em 1” (toca-discos e gravador em um único aparelho) e “3 em 1” (toca-discos, gravador e rádio AM/FM). Ai foi a festa geral, pois a gente podia inclusive montar fitas com músicas que tocavam na FM). Alguns até eram mais sofisticados e tinham dois gravadores e era então possível fazer cópia de fita para fita, inclusive num processo que o fazia em tempo acelerado.

As fitas eram copiadas e re-copiadas, passadas de mão em mão entre os amigos. Um lançamento novo se transformava em dezenas de cópias espalhadas entre os amigos. Claro que existiam os mais espertos, nada parecido com chineses com equipamentos sofisticados para fazer dúzias de cópias em CD de uma vez só e depois imprimir as capas em impressoras jato de tinta e dar na mão de camelôs, mas existiam pessoas que tinham vários gravadores e montavam as fitas, datilografando os nomes das músicas – ou escrevendo a mão mesmo, para depois colocar dentro de uma pasta “007” (qualquer hora falo disso) e vender em empresas e aos conhecidos dos conhecidos.

E assim foi comigo também. Cheguei a ter uma coleção imensa de fitas cassete “TDK” com coleções inteiras ou coletâneas das banda da época: “Black Sabbath”, “Led” etc. (Minha primeira fita cassete foi a “Volume 4” do Sabbath). Mas nunca comprei nenhuma, era sempre copiado de discos de amigos que tinham mais grana e compravam LPs na Bruno Blois, Breno Rossi e Museu do Disco, porque na Era Pré-Internética ainda não havia “Galeria do Rock” (As lojas de discos e a “Galeria” serão também assuntos de meus próximos textos). O “download” , ou seja “baixar” era no máximo o “baixar” um LP da prateleira de discos do amigo e colocar no prato do toca-discos.

Enfim, tudo era muito artesanal e humano na Era Pré-Internética, mas atentem ao seguinte: a gente precisava ir até a casa do amigo (ir, andando, com as pernas), conversar com o amigo pedindo emprestado o disco a ele (pedir, falando com a boca), depois sentar e, enquanto fazia nossa cópia aproveitava para bater um papo, saber das novidades em música etc. Tinha gente, tinha humanidade ao nosso redor, não apenas uma tela de computador na solidão de um quarto escuro.

10/30/2008

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor, tem uma arca na cabeça. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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