Arte: Barata

A Antiliteratura de Exílio de Barata Cichetto

Barata Cichetto

Uma das minhas formas prediletas de escrever, especialmente quando quero fazer desabafos, são textos que eu mesmo não consigo categorizar: são crônicas poéticas? Poesia em Crônica? Não sei. Um amigo me perguntou sobre isso, a que gênero literário se enquadra esses tipos, e respondi que o gênero literário é Baratismo. Não que eu tenha inventado isso, claro que não. Lembro-me de ter lido algo assim já nos anos 1960, mas não lembro o livro, muito menos o autor. E sei que muitos usam isso. Já publiquei muitos deles no meu livro “Pornomatopéias”, essa sim invenção minha — quando pensei na palavra procurei em tudo quanto foi lugar e não existia — E para esta publicação escolhi 50 desses, que ficariam perdidos em publicação individual, escritos entre 2017 e 2021, com a única regra de que teriam que ter até 250 palavras. Então sigam. São temas variados. E espero que deixem seus comentários, nem que for para me xingar, porque, sim, isso é antiliteratura. Com orgulho.

(BC, 11/05/2024)

PULAR O ÍNDICE

1. A Morte é Uma Bandeira

Meu sogro faleceu. Superou um câncer, mas não a cirrose. Eu queria dizer que sinto alguma coisa, tristeza, saudade, dor, mas não sinto. Não por ter algum problema com ele, nada pessoal, ele era uma boa pessoa, nunca nos tratamos mal. Sempre o respeitei. Nunca fomos muito próximos, mas também nunca distantes, e isso parece tão frio. E talvez seja. O fato é que não consigo sentir saudades, nem dor, nem tristeza. Ele sentia dor, acabou. Ele sentia faltas, acabou. Ele sentia tristeza, acabou. Ele sentia uma porção de coisas que sinto, mas ele não sente mais. Eu sinto. Ele foi. Eu fico. Ele tinha filhos que cuidaram dele, eu não. Ele tinha muitas coisas que não tenho. Mas não sinto inveja do que ele tinha, jamais sentirei inveja dos que tem algo que não tenho. Não importa se não tenho quem tenha a mim. Estou aqui, sentado sozinho e pensando uma coisa que sempre, desde criança, pensava: foi todo mundo embora e ele está sozinho, naquele buraco. Está fria a noite, será que ele não sente frio? Não, ele não sente. Já sentiu. Dor, frio, saudades, tristeza, angústia. E também sentiu falta, como eu sinto, de se sentir bem. Ele está sozinho para sempre, na eternidade do nada, e eu estou sozinho na eternidade do tudo. Até o tudo se fazer nada. E eu ser como ele. Livre! Meu sogro morreu. No Dia da Bandeira. Bandeiras à meio pau. Toque de silêncio!

20/11/2020

2. O Ovo ou a Galinha

Tem muita gente que acha que quem nasceu primeiro foi o ovo. E está certo. Outros acham que foi a galinha. E estão certos também. Mas quem acha que o Facebook nasceu primeiro que o ovo e a galinha está errado, muito errado. Mark Zuckerberg é só um pintinho, e sua galinha dos ovos de ouro, a qualquer momento pode virar canja, como muita coisa na Internet já virou. Bill Gates, o Billionário deu um foda-se para seu Windows pirata, registrou vacinas e comprou tudo que é agriculturável na América. Quem nasceu primeiro? A galinha ou a vacina? O Ovo ou o Povo? Ninguém sabe o poder que tem até perder. Quando foi a última vez que você saiu à rua, respirou fumaça ou eucaliptos e voltou para casa com vontade de transar? Faz tempo, né?! Ao menos um ano. Disseram fique em casa. Disseram tome vacina. Disseram foda-se seu trabalho. Disseram foda-se o emprego. Disseram tanta coisa que tanta gente acreditou. Disseram não foda. Disseram não goze. Disseram use camisinha. Use máscara. E todos acreditaram. Disseram tenham medo. E todos ficaram. Disseram morram. E morreram muitos mais que do que mandaram. Disseram vacina. E todos foram à China. Disseram estás morto, mesmo sem estar. E todos acreditaram. Morreram todos. E acreditaram. Que morrer era bem melhor… Esqueceram…

3. Crime de Guerra

A mim a situação é bem simples e clara: quando, ano passado, prefeitos e governadores perceberam que poderiam lacrar e lucrar ao decretarem “calamidade pública” e assim receberem muito dinheiro do Governo Federal por causa da “pandemia” saíram correndo para fazer decretos para justificar o dinheiro recebido. Achavam, sem concordar abertamente com o Presidente, que aquilo era apenas “uma gripe”, que passaria rápido e assim trataram de agir cosmeticamente, fingindo que tomavam atitudes com o dinheiro recebido. Assim foram tendas armadas como hospitais de campanha, e o grosso do dinheiro sendo usado para pagar filha de pagamento e outras dívidas atrasadas – por incompetência deles -e fazer compras totalmente fora do objetivo do dinheiro enviado, como compras de carros e outros merengues. Entre eles, dinheiro enfiado nas suas campanhas para prefeito e vereadores. Só que não foi assim, e merda não apenas não sumiu, como realmente se mostrou algo mais sério, e agora acabou a fonte do dinheiro, e resta-lhes disfarçar suas safadezas acusando o Governo Federal de omissão. Todos esses desgovernantes, que foram amparados por uma Suprema Corte corrompida até os ossos, precisam e deve ser julgados como verdadeiros genocidas que são. A pergunta é: por quem serão julgados?

13/03/2021

4. [A traição é algo que ninguém aceita]

A traição é algo que ninguém aceita. Contam que até mesmo entre bandidos ela não é aceita, e severamente punida. O traidor sempre foi, e deve ser, tratado como a mais vil das criaturas, e na história temos exemplos inúmeros. A traição, sob todas as formas foi punidas com rigor? Será? Se uma traição conjugal já foi punida e aceita, se a traição de um amigo por contar segredos inalienáveis foi aceita como justa, por que todos agora permitem que os verdadeiros traidores da humanidade estejam por aí, decretando Estado de Sítio e indo para férias paradisíacas? Por que toleram traidores da nação condenando cidades inteiras, estados inteiros, à fome, à miséria e ao caos, mentindo sobre números, e entregando nossas cabeças aos seus chefes estrangeiros? Ah, sim, Jesus perdoou Judas, e por isso o cristianismo se tornou uma religião de cordeiros prontos ao abate. Será que as pessoas ainda não perceberam o tom de ódio nesses ditadores, os dórias e edinhos e ratosjunior e companhia ilimitada? Eles te odeiam, te querem morto. Com uma máscara mortuária na cara. São traidores e merecem ser tratados assim!

5. Um Filme na Minha Cabeça

Em 1976 assisti a um filme que nunca saiu da minha cabeça. A película, que trazia Charlton Heston como protagonista, tinha o nome de “Soylent Green”. O título em português: “No Mundo de 2020”. O enredo se passa em 2022, quando não existe mais comida animal nem vegetal, e a multidão de famintos é alimentada por uma “bolacha” batizada como “Soylent Green”. Um idoso chamado Sol, de cerca de 60 e poucos anos, que mora num porão abarrotado de livros, é a única pessoa a questionar qual seria a origem daquela comida, já que nada vivo existia. Aos poucos ele consegue convencer um amigo que defende as forças do governo, algo como um policial, que mesmo timidamente começa a também a questionar. O senhor em questão – que já na época fiz meus cálculos e conclui que teria a minha idade no ano em que a história se passa -, desesperado com tudo decide ir a um local criado pelo Estado, aonde as pessoas se dirigem para suicídio assistido. Seguindo a pista, o policial chega a esse lugar com a intenção ainda de salvar o idoso, mas além de não ter sucesso descobre de onde vem a matéria prima da comida, do tal “Soylent”. Agora, neste distópico 2021, quando temos em curso um crime contra a humanidade que jamais será julgado, pois nenhum tribunal existirá isento para tanto, sinto-me cada dia mais como esse personagem com o qual me identifiquei, há 45 anos.

15/02/2021

6. Anti-humano

Há cem anos as ideias coletivistas começaram a ser imputadas nas cabeças das pessoas. Uma mentira, um engodo, uma farsa. O coletivismo é anti-humano, pois relega o ser humano apenas um mero coadjuvante de sua própria existência. Anti-humano por ir contra a própria natureza humana. Se a humanidade chegou ao estágio de evolução que está foi graças à esforços, trabalho e individuais. Foi o desejo individual que criou o progresso, então chamar de “progressistas” pessoas que defendem essa ideia é outra farsa. Ademais, não existe arte coletiva, toda arte é um trabalho individual, mesmo que seu resultado final seja coletivo.

27/09/2020

7. I’m (Not) Smiling Behind The Mask

Os números já foram devidamente torturados e agora estão na sala de maquiagem: aumento expressivo de casos de gripe chinesa em Janeiro e Fevereiro, por conta da “teimosia” da população que comemorou nas festas de final de ano. A desculpa para prorrogarem suas ações ditatoriais e aumentar consideravelmente o estado de pânico, fazendo com que todos marchem alegremente rumo ao abatedouro. Há muitos sofrendo, e derramando lágrimas que escorrem e molham suas máscaras de pano, mas são incapazes de admitir que elas são inúteis contra o que lhes causa o sofrimento. Preferem sorrir sem que se lhes vejam os dentes, manchando de amarelo o tecido. Sorriso nervoso, é fato; sorriso medroso, é certo. Debaixo de máscaras ninguém é feliz, mesmo que de felicidade chamemos a liberdade. Cobertos de máscaras não sorrimos. No máximo rimos. Feito hienas, contentes com a merda que comemos. A pergunta: até quando? Eu não estou sorrindo debaixo da máscara. Ninguém sorri debaixo de máscaras. Apenas ri, um riso de terror!

2/13/2020

8. Inocentes Inúteis

Não pensem, senhores e senhoras, que meu Bar está fechado. Não pensem, senhoras e senhores, que minha vida está acabada. Não pensem, crianças e adolescentes, que minha boca está morta. Não pensem, idosos e idosas, que eu entrego minha cabeça numa bandeja. Perdemos a guerra, sim. Ganhou o lado que nunca foi o meu. Perdemos todos os justos nesta terra, perdemos todos os que clamam por liberdade – e que por ela lutaram. Perdemos a batalha, a guerra, a luta. Não há herói. Perdemos a última guerra, não apenas outra, mas a derradeira a todos os indivíduos que sonharam e, cada um do seu jeito, lutaram contra a tirania. Não foi um vírus, foi uma doença que nos derrotou. Mas não pensem, senhoritas e senhorios, que morro sem esbravejar, espumar, gritar, esmurrar até que mesmo sangrando entorte, um pouco que seja, a ponta da faca. Quero meu caixão bem pesado, mas não vou levar nele nenhuma pedra: atiro todas antes. A mim a terra será leve, e que todo o peso das consequências recaia sobre que nos levaram ao fim. Ao fim da humanidade como conhecemos, recaiam sobre todos os culpados. Não há inocentes úteis. São todos inúteis.

22/12/2020

9. Vou Mudar de Gênero

Andei pensando comigo: há quase cinquenta anos acredito quem gênero específico seria o ideal, o correto, o lógico e o único válido para mim. Mas agora cansei: quero mudar de gênero. Estou cansado de ser apenas uma coisa, quero ser muitas outras. Há tantas possibilidades… Começarei pelo gênero de vida, meu modo de viver; depois o de fazer: nada de coisas óbvias, inerentes ao masculino ou feminino; depois, e só depois, preciso mudar meu gênero humano, a consciência da espécie, e assim talvez me transforme num gato, ou até mesmo num’a barata, como bem me convém. Mas a minha primeira decisão é com a mudança de gênero: não escrevo mais poesia. A partir de agora, só prosa, mesmo!

15/12/2020

10. Viva a Revolução!

Façamos então, pois, uma revolução poética. Mas sem poesia, por favor, que revolução não se faz com poemas rimados, mas com armas engatilhadas, sejam elas bandeiras, máscaras ou vírus. Façamos uma revolução estética. Mas sem ética, por favor, que revolução se faz na bala, com medo e pavor, sem palavras, por favor. Façamos uma revolução cultural. Mas sem arte, por favor. Sem telas, sem páginas, sem livros. Sem liberdade de expressão. Façamo-la com tanques de guerra, cadeia, e especialmente com cerceamento do pensamento livre. Façamos com opressão, depressão, falta de condição. Com pressão, medo, terror e pânico. Ao gosto dos que gostam de sangue vermelho. Façamos, pois, uma revolução inédita. Com putas de máscaras apavoradas pelas ruas, sem clientes que as fodam! Revolucionários: marchem!

28/06/2020

11. Estantes

Sim, eu tenho estante de livros. Sempre tive estante de livros. Gosto de olhar para eles, enfileirados de alguma forma, às vezes lembrando há quanto tempo alguns estão lá, me fazendo companhia. É a companhia que tenho, no meu quarto que serve para tudo, inclusive dormir. Na minha casa não tem sala, nem para ácaros, nem para parentes. Amigos usam a do Facebook, essa sim cheia de ácaros, pentelhos e gente exortando o digital. Digital não tem ácaros, tem vírus de todas as nacionalidades. Tenho estante, gosto de estante e gosto de ter livros organizados por algum motivo que me der vontade. Sim, estante é ego, e eu gosto de massagear meu ego olhando com orgulho para os livros que já li. Minha história está toda ali. Moro em 6 metros quadrados e a estante tem 2. Cheia. Sim, eu mostrei a foto ontem. Sim, eu sou mesmo brega.

20/06/2020

12. De Direita e de Esquerda

Já tomei muitos socos. De direita. De esquerda. No queixo. Mas não me queixo. Apenas ergo a cabeça. E deixo. O sangue escorrer. Tem mais de onde veio esse. Muito soco na cara. No saco. No sul e no norte. E quanto a sorte. É apenas a morte. Fazendo hora. Com a minha cara. E eu não abaixo a cabeça. Com socos. Nem de direita. Nem de esquerda. Bato com as duas. Pernas em retirada. Nasci defeituoso.

20/06/2020

13. E Se a Palavra “Amor” Desaparecesse?

Imaginem se a palavra “amor” e todas as suas variações como substantivo masculino, tanto com na conjugação em todos os tempos do verbo transitivo direto e pronominal “amar”, simplesmente desaparecessem? O que seria? Simplesmente o mundo entraria em colapso? Cairia em uma guerra apocalíptica? Ou simplesmente as pessoas seriam mais honestas e sinceras com as outras, e especialmente consigo próprias? Sem podem dizer “Eu te amo” as pessoas procurariam com atos e fatos demonstrar o quanto tem sentimentos como respeito, carinho, admiração, cumplicidade, etc., para com outra e outras. Sem poder falar em “amor” precisariam serem honestos com o sexo e fazerem dele apenas o que é. E usariam mais outras palavras como “querer”, “fazer”, “ser”. Enfim, a extinção da palavra “amor” e suas vertentes, traria o verdadeiro sentido de “amor”. E quem sabe extinguiria outra palavra: “hipocrisia”.

30/12/2012

14. Pessoas e Deuses

Ontem, caminhando numa avenida movimentada no centro de Araraquara, com minha barba e cabelos quase todos brancos e longos, cruzo com uma senhora de cerca de uns 80 anos. Ao passar por mim, ela diz algo que não entendo. Paro e pergunto à idosa: “O que a senhora disse?”. E ela: “Eu disse pra mim mesma: eu sabia que Jesus voltaria. E agora estou vendo.” E deu um gostoso sorriso. Fiquei uns segundos longos olhando para ela, querendo falar alguma coisa. Nesse tempo um milhão de coisas me passou na cabeça. “Sou ateu. Tenho quase o dobro da idade de Cristo quando morreu. Muito obrigado. A senhora é simpática. Ah, eu não sou não, estou mais pra demônio que pra santo.” Foram algumas delas. Mas apenas lhe sorri e continuamos, cada um em sua direção, nossa caminhada. Eu nunca a tinha visto, e possivelmente jamais a verei. Ela não sabia quem eu era, e eu muito menos quem é ela. É claro que a senhora não é doida, não me confundiu com nenhum Jesus, mas sua atitude simpática e sorridente me associando a alguém que para ela deve ser o símbolo máximo de bondade, paz e justiça, me fez perceber que, acima de quaisquer dogmas, quaisquer crenças, e seja lá o que nos desune, sempre haverá pessoas capazes de nos atribuir, pela própria bondade, um sentimento bom, mesmo que não tenhamos. Então, é Natal… E eu continuo como ateu. Não há deuses, existem pessoas.

18/12/2019

15. Poeta Maldito, Eu?

Poeta maldito? (…) Termo chique que certos escrevinhadores se auto intitulavam, e cuja maior proeza era mijar no palco do Teatro Municipal de São Paulo. Poeta era maldito num tempo maldito, em que a poesia era perseguida como arte, como toda palavra revolucionária. Ah, deixe de besteira, que toda palavra era revolucionária. Poeta maldito agora… Termo desgastado, abusado, sacrificado, numa era maldita em que a poesia está morta, e a maior proeza dos escrevinhadores é serem meras carpideiras de um defunto insepulto que fede na sala de estar de varandas gourmet e nas favelas glamourizadas. Um tempo em que toda palavra não é mais revolucionária, apenas politizada, e perderam o sentido. As palavras, prostituídas, agora cobram caro pelo uso. E fingem que gozam nas bocas que gritam “liberdade” com bocas de bosta, A poesia está morta!

11/12/2019

16. O Filósofo Nosso de Cada Dia

No Brasil aparece um filosofo “genial” todos os dias. A mídia constrói filósofos como se fossem astros do funk ou bonecos de playmobil. O problema é que a imensa maioria deles não é de filósofos ― e nem falo em formação de nível superior, pois não é a formação acadêmica que determina -, já que se detém a falar como sociólogos movidos por ideologias políticas. O verdadeiro filósofo não fala do coletivo em relação ao individual, o filósofo real deve tratar do individuo em relação ao um coletivo muito maior que problemas de favelas, cotas, polícia e bandido. Deve o filósofo se preocupar com as vicissitudes da mente e da alma do ser humano, gerador de toda a saúde e enfermidade do mundo. Filósofos a serviço de ideologias políticas de qualquer natureza, não apenas ofendem o sentido da Filosofia, como perdem qualquer respeito às suas ideias. A Filosofia não requer canudo, mas requer isenção política para que seu pensamento possa ser livre. Sem pensamento livre não existe Filosofia, apenas Sociologia barata, corrompida e amorfa.

25/10/2019

17. Coringa

Coringa é um tema que tem merecido as mais alucinadas teorias, especialmente por parte dos lunáticos do politicamente correto. Eu disse lunáticos? Não, quero dizer pervertidos. Disse politicamente corretos? Não, quero dizer esquerdóides armados. Dia desses li uma postagem neste Facebook, de um cara que dizia que Coringa era o filme errado na época errada… Há filmes certos em época certa? Qual é o filme certo? Talvez para esse que escreveu isso deva ser “Bacurau” ou “Marighela” Época errada? Não existe época errada. Não existe filme errado, nem filme certo. Existem, sim, filmes que retratam uma época, a sua própria, e por isso são tachados de errados. Nenhuma época se reconhece nas artes, isso só virá no futuro. Neste mundo, sempre no fio da navalha entre loucura e a não-sanidade, entre a solidão e a tortura, entre a simples existência e a morte, alguns conseguem colocar um riso na cara, mesmo que falso, e assim passar mais ou menos incólumes, mais ou menos ilesos, mais ou menos felizes. Os que não conseguem sorrir, até por que seus dentes foram arrancados, tem dois caminhos: ou se tornarem os bobos da corte, ou se tornarem simplesmente uma piada mortal, para outros palhaços que buscam a graça nos esgotos.

05/10/2019

18. O Ser

Querem que o branco deixe de ser branco, e que o negro deixe de ser negro; que o homossexual deixe de ser homossexual, e que o heterossexual deixe de ser heterossexual. Querem que o homem deixe de ser masculino, e que a mulher deixe de ser feminina; e que a criança deixe de ser criança, e o adulto deixe de ser adulto. Que o comunista deixe de ser, que o capitalista deixe de ser; e que o esquerdista deixe de ser e o direitista deixe de ser. Querem que eu deixe de ser, que tu deixes de ser, e que ele deixe de ser, que ela deixe de ser. O que querem, no final, é que nós deixemos de ser. Só assim somente eles podem ser.

04/10/2019

19. Eu Não Quero Morrer

Eu não quero ser outro escritor a morrer esquecido, o que é diferente de não ser lembrado; não quero ser outro escritor a morrer de fome, o que é diferente de não ter o que comer; não quero ser outro escritor a morrer sem glória, o que é diferente de ter sucesso; eu não quero ser outro escritor a morrer pobre, o que é diferente de não ter dinheiro; eu não quero ser outro escritor a morrer desconhecido, o que é diferente de reconhecido; eu não quero ser outro escritor a morrer sem deixar herança, o que é diferente de legado; eu não quero ser outro escritor a morrer sem viver, o que é diferente de sobreviver.

03/10/2019

20. Gôndolas

Neste supermercado insano, os gênios são pintados com as mesmas cores dos medíocres, embalados e rotulados da mesma forma, e colocados lado a lado, na mesma gôndola, e depois vendidos pelo mesmo preço, como se fossem todos gênios. Portanto, é quase impossível que se perceba a diferença, e o “consumidor” paga o preço. Sempre paga pelo que lhe é oferecido. Essa é a tática comercial dos que alimentam o supermercado da ideologia coletivista.

07/10/2019

21. Não Quero Mais Te Comer

Eu quero te comer, mas tenho receio de falar comer e acharem que sou fascista. Eu quero te foder, mas tenho medo ao falar foder que achem que sou machista. Quero mesmo trepar, mas e o medo de falar em trepada e pensarem que sou chauvinista? Meu desejo é te chupar, mas se eu falar em chupadas talvez pensem que sou capitalista. Ah, quer saber de uma coisa? Eu não quero mais te comer, nem te foder; não quero mais trepar, não quero te chupar. Perdi o tesão, com tanto medo. Não é fácil ficar de pau duro com tanta gente tomando conta das palavras.

19/09/2019

22. Brasileiro Feliz

O panorama no Brasil, onde as pessoas se ofendem e se odeiam por qualquer coisa, especialmente por política, mostrou a real face do brasileiro que sempre ficou escondida. Sempre se vendeu a ideia do povo cordato, festivo, tranquilo, alegre e brincalhão, que só queria saber de Carnaval. Mostra-se agora que somos um povo violento, e isso nada tem a ver com armas. Ou seja, caiu a máscara. Culpa do atual Governo? Claro que não, não seja ingênuo, a culpa é do se acumulou particularmente nos últimos vinte anos. A única pecha que sobrou é a de sermos um povo malandro. Junta-se isso e temos um imenso caldeirão, que pode a qualquer momento explodir. Ou virar um imenso bacanal.

11/09/2019

23. Faces da Hipocrisia

Vou contar um segredo pra vocês, meus queridos amigos do Foicebook, aqui entre nós: sabe o que mais gosto e mais odeio no Presidente? É que ele fala abertamente, sem hipocrisia, e manda se foder quem merece. Tipo fala o que muita gente quer falar e não tem coragem. Talvez isso explique o fato de muita gente se identificar com ele e apoiá-lo, e outros se sentirem mal, por não terem mesmo coragem de dizer o que ele diz. Agora, quem se descabela com isso e toma as dores do “ofendido”, não é por defesa do mesmo, mas de interesses ideológicos próprios. Em outras palavras, aqueles que defendem um ex-presidente que mijava nas calças e vivia bêbado, o analfabeto presidiário.
PS ― A mulher do francês é um horror de feia. É mentira?

24. Suicídio Cultural

O que aconteceu com a evolução humana? Esse episódio da Bienal do Livro do RJ me lembra da antiga revista “General”, que publicava uma HQ chamada “Ranxerox”, onde um androide tinha um caso com uma ninfeta de 12 anos. Tinha até cenas explicitas, e a revista era vendida em bancas. Hoje, como seria? Qualquer forma de censura é burra. E ponto. A caça às bruxas está feia. A liberdade de expressão corre mais perigo a cada dia. De um lado os politicamente corretos, do outro a sanha dos religiosos. E no meio, artistas são boicotados, bloqueados e como consequência acabam ate entrando em depressão e morrendo. Os fiscais da moral, amparados por ideologias criminosas e igrejas não menos, agem impunemente, à luz do dia e se dizem representantes da vontade alheia, tanto a popular quando a divina.

06/09/2019

25. Petismo

Ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de receber um níquel após minha morte, por uma linha sequer que eu tenha escrito. Busquei o apoio, implorei pelo incentivo, desejei ao menos o respeito a um trabalho, que foi feito com afinco, suor e dedicação. Sempre foi negado. E se existir neste mundo algo que se possa chamar de justiça, que todos os direitos eventualmente oriundos de qualquer coisa que eu tenha escrito, jamais sejam dados a quem me escorraçou, me humilhou e especialmente renegou. Não usurpem, não se desculpem. A minha herança é a sua consciência. E espero que ela lhes pese pelo resto de suas existências.

01/09/2019

26. Tenho Mais Amigos no Facebook Que Poesias

Acordo de madrugada com uma estrofe estampada no escuro. Tateio a mesinha de cabeceira e apanho o celular. Preciso anotar antes que o verso me suma da cabeça. Aproveitar a inspiração. Mas em lugar do Bloco de Notas uma Notificação. Abro o Facebook. Foi-se a poesia! Alguém ainda quer ser meu amigo? Tenho mais amigos no Facebook que Poesias.

04/09/2019

27. Porcos Não Usam Colares

Porcos dividem o mesmo cocho, a mesma lavagem, feita de sobras das mesas do poder. E um empurra o outro, dizendo que o outro é mais porco. O porco branco se acha melhor que o porco preto, o porco amarelo se diz superior. Cobram se entre si o que nenhum deles deve, enquanto a lavagem esfria. Todos são porcos diferentes, mas alguns porcos são mais diferentes que outros porcos. Ou mais porcos que outros. Enquanto isso, estala o chicote no lombo de todos os porcos, porque para os donos da porcaria, todos os porcos são iguais, e é ilusão da igualdade o que os separa. Do cocho ou da mesa de jantar. Que tipo de porco você é? Dá para escolher. Ou não?

07/09/2019

28. Reflexões Sobre Meu Sexagésimo Primeiro Aniversário

Estamos num mundo às tortas onde todas as portas parecem se fechar. Um mundo de mortas que não sabem trepar. De escritores que não sabem ler. De leitores que não sabem escrever. Onde todos são poetas e ninguém é poesia. Onde todos são livros e ninguém é literatura. Um mundo onde todos tem opinião e ninguém sabe o que o não. Pensadores que dispensam apresentação. Formados nas faculdades das igualdades. Com sinceridade sem educação. Com respeito à decepção. Estamos num mundo sem fronteiras. Com limites cercados. Um poeta em cada portão de casas sem leitores. Um escritor em cada centímetro quadrado num mundo redondamente analfabeto. Um mundo de fetos abortados. De dejetos entortados. Trajetos cortados. Insetos. Resta a certeza. Da morte. Sobra o resto. Eu não presto. E por sorte não empresto. O que sou. Dia a dia me abandono. E nem o sono. Consola. Não há orgulho em ser o que sou. Mergulho profundo no que fui. Sou escritor. Sou poeta. Sou leitor. Ator. Peça sem fim. Peça o meu fim. Atendo.

26/06/2019

29. Sou Tão Bom e Tão Mal Quanto Bukowski

Disseram que eu era tão “mal” quanto Bukowski, e eu ri. Queria ser tão “mau” quanto ele era. Não gosto de ser comparado com artistas que eu gosto, apesar de não gostar tanto assim de Buk, prefiro ser comparado com quem detesto. Comparem minha escrita com a da Martha Medeiros, eu detesto a Martha Medeiros; comparem meus escritos com qualquer poeta modernista: eu detesto os poetas modernistas. Comparar-me com algum dos poetas que eu gosto é sacanagem. Com eles. E não gosto de sacanagem com quem eu gosto. Querem mesmo comparar meu trabalho com o de alguém, o faça com o de quem eu não gosto, para que assim esse ser possa se sentir muito irritado. Eu gosto de saber que quem eu não gosto fica irritado. Mesmo que não eu fique sabendo que ficou. Só de imaginar que um desses poetas de feiras literárias ficou irritado por ser comparado à alguém tão insignificante quanto eu, me faz sentir bem. Agora, a pior sacanagem comigo é comparar com gente que eu gosto e que morreu, como é o caso do Bukowski. Sou melhor que ele. Nem bom nem mau, apenas melhor.

25/06/2019

30. Ironias

Dia desses, falando com um garoto de oito anos, ele me perguntou se eu era escritor. Eu disse que sim, e ele me disse que eu devia ter muitos fãs, e me perguntou quantos eu tinha. Rindo irônico, eu disse que cinco, no máximo. E ele, sério, e sem nem saber direito o que eu escrevo, me disse que agora eu tinha seis, que ele também era meu fã. Ele não sabe direito o que escrevo, nunca leu, aliás; e talvez nem saiba direito o que é ser um fã ou mesmo um escritor, mas foi a forma que ele encontrou de demonstrar duas coisas em falta nesses tempos grossos: respeito e carinho.

02/10/2018

31. Facebookiana Número Alguma Coisa

Fiquei três meses longe de Facebook, por decisão consciente, como o de um alcoólatra precisa ficar longe do boteco, da garrafa, e dos amigos bêbados. Mas ao contrário do bebum não senti falta do boteco, nem da garrafa, mas dos amigos. Alguns, como os amigos do bar, até que me ouviam. Eram poucos, como lá, mas haviam. E por sentir falta deles, retornei, mas o boteco não me encanta mais, a garrafa não me embriaga, e daqueles amigos que estavam sempre prontos a escutar as lamurias de um viciado, poucos sobraram. Pouco importa, pois, se um escutar, ainda vale a pena estar no lugar. O Facebuteko e a garrafa daquela cachaça boa, aquela curtida, creio que me entendem, não surtem o efeito que antes surtiam. Amigos serem terão efeito em mim, desde que sejam, não aqueles que sempre esperam que eu pague a conta, nem aquele que me deixa caído depois da bebedeira. Não esperem, portanto que eu beba da sua cachaça, que me embriague de curtida, que no meu boteco, eu bebo só do que gosto.

04/05/2019

32. O Que Eu Tenho

― O que eu tenho? ― Sempre que me faço essa pergunta, a resposta é rápida e clara: tenho a escrita. Sem dinheiro, sem nenhum sonho maior, sem desejos pueris, é a escrita que sobra, ainda que caótica e torta, sem grandes qualidades. Afinal, apenas com o ensino fundamental, mesmo que tenha sido durante muito tempo um ávido leitor de qualquer coisa, de que forma eu poderia ser chamado de escritor? Não me empolgo com esse título, não proclamo como profissão e não sonho estar numa cabana, solitário, escrevendo. Então e por isso digo que tenho a escrita. E a tenho não como posse, mas como companhia. Não tenho dinheiro e ela também não exige, e eu não exijo dela também nada que não possa me dar, a não se o conforto de estampá-la em folhas de papel ou em telas mágicas de computadores. Temos um ao outro, apenas. Isso basta. E nesse exato momento, em que olho para ela aqui, nestas letras que vou digitando até formar cada palavra como esta, percebo o quanto a tenho. E mesmo que eu acabe, como agora, esta escrita, ela ainda estará comigo, de outra forma. Não apenas até este fim, mas até qualquer outro fim.

08/03/2019

33. “Não Existe Almoço de Graça!”

Quando custa um tanque de guerra? Preciso saber, que pretendo explodir a Capital Federal, o Presidente e todos os políticos… ― É caro um tanque de guerra. Melhor mesmo é ir dormir… ― E quanto custa uma metralhadora? Preciso saber, que pretendo estourar a sede do Governo Estadual e a Assembleia Legislativa… ― Custa caro uma metralhadora. Então é melhor deixar quieto… ― Qual é o preço de uma espingarda, que pretendo estourar os miolos do Prefeito e de todos na Câmara Municipal… ― É cara uma espingarda. Então é melhor eu ir para a cama e ligar a TV… ― Uma granada, qual é o custo? Que pretendo explodir a casa do vizinho que faz churrasco e toca pagode o dia inteiro… ― É cara uma granada. Então é melhor eu ir para a rua de cima beber até esquecer… ― Ah, mas quanto dinheiro custa um revolver? Preciso comprar e estourar meus miolos… ― É caro demais um revolver. Então é melhor… Comprar um pacote de veneno de ratos… ― Até…

01/01/2018

34. Tudo Em Nome do Dever

Eu não sei escrever, mas gosto de dizer que sei, e quem diz que gosta do que escrevo eu também gosto. Hoje não escrevi. Todos os dias escrevo alguma coisa, mesmo que seja qualquer coisa, mesmo que seja coisa à toa, ou até coisa boa. Mas hoje não escrevi nada. Não sabia o que escrever, sobre o que escrever; sobre cumprir comigo o meu dever. Não que eu deva escrever por dever, mas escrever por escrever. Nem que for para cego ver. Não sei se tem algo a ver com minhas crises de ansiedade, ou pela solidão desta cidade, mas decerto que pode haver algum motivo. E talvez esse motivo seja apenas o de eu me sentir vivo. É meu dever! Escrever?

31/08/2019

35. Planeta Prisão

Há centenas e centenas de milhares de anos, um distante planeta de um sistema solar também, começou a ter sérios problemas com a violência e os crimes diversos, chegando a comprometer toda a sua economia, em função dos altos custos, não apenas financeiros, mas sociais, em manter um numero enorme de prisões. A decisão de seus governantes, foi descobrir um planeta que suportasse sua forma de vida e para lá mandar todos os criminosos. E assim, naves partiram com essa missão, durante anos. Uma delas regressou com o planeta correto, que era habitado por criaturas estranhas chamadas de baratas. Para tal planeta, durante os anos seguintes, todos os criminosos foram transferidos, transformando o tal planeta numa prisão sem grades, cujos limites eram sua própria atmosfera. Não havia necessidades de guardas, nem sistemas de segurança. Essa raça, derivada desses criminosos intergalácticos se proliferou e dominou o tal planeta. Os criminosos mais astutos criaram deuses, regras, histórias e mentiras. E sobreviveram. Sobrevivem ainda nesse planeta prisão. O planeta foi chamado de Terra.

01/01/2014

36. Poesia é Narcisismo

Poesia é narcisismo, egoísmo, maniqueísmo. E outros tantos ismos, histéricos e herméticos. Autoritarismo incluído. E sim, a poesia é assim. Se não for assim não é poesia, é movimento político. Não há poesia no comunismo, entretanto, porque o coletivo não faz poesia. A arte é individual, portanto egoísta. A arte é de um para muitos, nunca o oposto. Por isso tem valor. A busca da auto compreensão e a partir daí o entendimento de outros seres. Nada há de errado nisso, a não ser mesmo nas mentes polarizadas que acreditam na existência de um fantasma chamado espírito coletivo. Pensar é um ato individual. Agir pode, mas não obrigatoriamente é coletivo. A alegria e a tristeza idem. Pensar fora do binário? Sim, agir fora dele? Difícil… Mas não impossível. E entre o difícil o impossível há exatamente a poesia, que nos tempos correntes, por força da força, ou por força da pressa, deixou de ser presente. A poesia não comove mais, justamente pelas mentes que impõem a ideia absurda da arte coletiva e engajada. Isso matou a poesia… E mata os poetas de fome.

01/02/2015

37. Nada de Novo no Front

O que mais me entristece e irrita, é saber que embora sejamos todos sobreviventes à holocaustos perpetrados ao longo do tempo, nos instigam uns contra os outros para saciar sua sede de poder. Há muito tempo, li um livro que contava sobre um soldado na I Guerra Mundial, e o que ele pensa no exato momento em que um soldado “inimigo” cai ferido em sua trincheira. Entre o que mandaram fazer, que seria matar o outro, que ele não conhecia, que não lhe tinha feito nada, e que era um ser humano feito ele. É assim que ocorre atualmente. Quando cai um “inimigo” em nossa trincheira tratamos logo de atirar nele, pois foram nossas ordens. E nunca pensamos sobre quem nos deu essas ordens, e especialmente, jamais lembramos que aquele ser também recebeu as dele. E ambos estão numa guerra, que no fundo não queriam lutar.

04/01/2019

38. Meu Discurso de Ódio

Eu não finjo que não sinto ódio. E meu ódio maior é aos fanáticos de todos os tipos, que roubam a beleza, a pureza e a incerteza de todas as coisas. Eu não finjo que não sinto ódio por fanáticos, que por sua natureza, transformam em ódio todas as formas de não se sentir ódio.

21/10/2018

39. Os Infernos São Outros

Jean Paul, que nunca foi baixista, mas que era filósofo, e que era comunista, e que era casado com uma feminista, e que era existencialista, e que era um monte de “ista”, disse que “o inferno são os outros”, que numa interpretação equivocada coloca sempre nos outros as nossas culpas, mas que diz lucidamente: não assumimos as consequências de nossas culpas. Jean Paul, o que nunca foi besta, apenas equivocado, não mora no Brasil de 2018, nem conhece os comunistas, existencialistas, socialistas e nem outros istas brasileiros. Muito menos os fascistas, essa palavra que ficou na moda nos últimos tempos. E eu, que não sou Jean Paul, nem sou ista nenhum a não ser, talvez, artista, paguei o preço por chamar a atenção justamente usando da mesma retórica e, claro, ser acusado de ser eu, não o diabo, o responsável pelo inferno. Acordei de manhã com uma postagem no Instagram: “Triste por saber que metade do Brasil é formado por imbecis”. E aí me pus a pensar sobre a qual metade o autor da frase se referia. Se aos quarenta e seis por cento que escolheram um, ou aos, portanto, cinquenta e quatro por cento que escolheram outros. Afinal, imbecis, idiotas, e principalmente fascistas, são sempre os outros, não é mesmo, Jean Paul?

08/10/2018

40. Nelsonrodrigueando às Avessas

“De gente burra, só quero vaias”, disse Nelson, o Rodrigues, que também disse muitas outras coisas. E nem sempre foi vaiado, nem sempre foi aplaudido. De fato, Nelson tinha certa razão, já que ser aplaudido por gente burra te faria um burro igual. Mas por outro lado, não ser aplaudido por ninguém, não te torna mais inteligente.

“A maior desgraça da democracia, é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade.” ― Nelson Rodrigues

28/09/2018

41. Escritores de Facebook

Um amigo de Facebook, que é escritor, posta um texto ótimo. Eu curto e comento, mas outro amigo dele, que não é meu amigo de Facebook, mas também é escritor, comenta também que o texto do primeiro é ótimo. Eu já sabia, e já tinha dito, ou melhor, escrito, no Facebook. O primeiro amigo de Facebook comenta com o amigo, que é dele, mas não é meu, que o segundo é o melhor escritor do Facebook. E eu não curto o comentário, nem comento. E não fico com raiva do meu amigo de Facebook por ele ter falado que o outro, que não é meu amigo, é o melhor do Facebook. Afinal, o segundo nem é meu amigo de Facebook mesmo…

28/09/2018

42. Por Que Eu Não Falo de Flores

Eu nunca soube o que são flores, portanto, não consigo falar sobre elas. Desconheço-lhes as cores, e reconheço nos seus odores apenas os da morte; do mesmo jeito que lhes desconheço como amores, e portanto reconheço apenas as dores. Há quem acredite que flores dão sorte e paz, mas a mim, só conheço da flor a morte e a lembrança que dela me traz.

30/09/2018

43. Barata Para Presidente!

“Nunca antes na história desse país…” Estamos numa situação extrema nessas eleições. O medo toma conta de todos. A “direita” tem medo da “esquerda”. A “esquerda” tem medo da “direita”. A “direita” da direita. A “esquerda” da esquerda. E até mesmo as próprias aspas tem medo. O abre aspas tem medo do fecha aspas. Assim por diante. Querem um morto e o outro livre. Um livre e o outro morto. Querem o morto vivo e o vivo morto. Justiça é boca-rota. À bancarrota. Nunca antes… Justiça seletiva. Vida seletiva. E diante desses fatos, até os ratos pulam do barco, de dentro dos meus sapatos. E preferem se afogar no mar. Amar é piegas. O importante é concorrer. Que vença o melhor. Desde que haja. Nem pior, nem melhor, apenas… Doente. Ainda há mar? Não voto em eleição. Aprendi a lição. Mas minha aflição é perder amigos por conta de seu cérebro que foi derretido nas fornalhas das faculdades, dos porões não da ditadura, mas dos esquemas gramscianos de poder. Do poder só quero a rima com foder. Guarde a faca e enforque o comunista. Guarde a arma e atire no demiurgo. Guarde a mala. O medo é seu candidato a presidente. O medo já ganhou a eleição. Que numero digitar na urna? Não importa. O que vale não é o resultado da eleição, mas o da ereção. Presidente? Prefiro os lenços. Barata para presidente! Presente!

Barata, o Presidente 2112, 15/09/2018

44. Um Texto de Qualidade Duvidosa

Meus textos podem ser considerados de qualidade duvidosa, a dúvida idosa, mãe de todas as putas, avó de todos os poetas, e prima-irmã de todos os suicidas. Meus textos podem ser considerados inconvenientes, inconsequentes, indecentes, doentes, adolescentes, por quaisquer entes, queridos ou não. Meus textos podem ser considerados dispensáveis e desnecessários, como qualquer puta, como qualquer mãe e qualquer avó, mesmo das avó das mães das putas. Meus textos podem ser considerados cruéis e sujos, cruelmente sujos como coronéis, padres e políticos, que lavam as mãos antes de comer cérebros humanos. Meus textos podem ser considerados anti-literários, pseudo literatura e coisa de analfabeto metido a besta. E não tenham dúvidas que são tudo isso e muito mais. Meus textos, enfim, são meus. E sobre isso não restam dúvidas, nem idosas, nem recém nascidas. E algum dúvida restar, que comece a ler novamente do primeiro parágrafo.

26/09/2018

45. Mudança ou Morte!

A cada injustiça que comigo cometem, mais amolada fica minha espada. A cada golpe nas minhas costas, mais fortalecem meu pulmão. A cada soco no meu estômago, mais fome de lhes devorar eu tenho. A cada pisão no meu pé, mas longe tenho vontade de ir. A cada empurrão, mais adiante eu vou.

11/07/2018

46. Foda-se Facebook!

Na casa do F azul, tudo que o que eu digo é: Foda-se, Facebook! Farsantes facínoras da fé fácil. Foda-se, Facebook! Falsos, falastrões e fingidos. Foda-se com F, que é fácil falar falsidades e fazer falsetas. Foda-se, Facebook! Fodam-se, fedorentos e frescos, fodam-se, fiscais. Ah, foda-se, Facebook! Foi foda fazer, aí fizeram festa. Foderam a federação, falsificaram a felicidade, ferraram a fidelidade. Facilitaram a foice, faliram a fiança. Fizeram feio, fomentaram falência, ferveram fetos. Foda-se, Facebook, facção da farsa. Foda-se, Facebook! Filhosdaputa! Foda-se, Facebook! Fui fumar! ― Falando em “F”: a função da foice é ceifar!

29/08/2019

47. Bukowski Era Um Velho Desprezível

Passei a tarde lendo outro livro de Bukowski. Que merda! Por que alguém se dá ao luxo de perder tempo com esse autointitulado “Velho Safado”? Charles era um desprezível. Toda sua prosa é desprezível. Sua poesia é desprezível. Mas nem todo mundo lê Bukowski hoje. Muita gente diz que lê, pois é ser “modinha”. É legal dizer que leu, e depois ficar nessas merdas de redes de Internet vomitando frases dele, sem sequer entender que ele era um velho desprezível. Um bêbado que gostava de carros caros e ganhou muita grana. Não, Buk não é aquele camarada que te pediu uma pinga ontem à noite na porta do boteco onde cê tomava sua Heineken e tirava fotos para publicar. Se fosse ele, cê teria dado a bunda pra ele, mas como era só um velho cachaceiro, tu deus umas porradas nele e as putas que bebiam no seu copo melaram as calcinhas. Aliás, se fosse o velho Charles aquele bêbado babão e sem dentes, ele mesmo te daria umas porradas. E te deixaria com a boca sangrando e as putas chorando na porta do SUS. Mas não era, e cê o encheu de porradas e xingou ele de bêbado safado. Se fosse ele, cê não viraria uma história dele, não viraria um conto, pois ele falava apenas de derrotados, não de idiotas.

26/05/2018

48. Tudo Certo. Tudo Politicamente Correto

Um homem idoso dá uma cantada sexual numa garota de vinte e poucos. Ele diz que ela é gostosa, que quer transar com ela e um monte de coisas. Ela responde que não vai transar com um velho babão e xinga o velhote de machista, diz que ele não se enxerga e um monte de coisas. Ela o processa por assédio. Ele a processa por preconceito contra idoso. Estão presos. Ninguém trepou com ninguém. Nenhum dos dois gozou. Ela virou lésbica na cadeia, afinal homens são todos uns porcos. O velho morreu na cadeia, afinal lá se dá ou se morre protegendo o cu. Os advogados processaram os dois por falta de pagamento. A União recolheu à custa do processo. Os políticos fizeram as leis para proteger a sociedade. O presidente foi pego roubando. Ninguém sabe. Ninguém viu. A garota foi pra Marcha para Jesus. O velho para o cemitério. A vida segue. Está tudo certo. Está tudo politicamente correto.

21/10/2017

49. Uma Rede de Intrigas na Verdade

Que sociedade complicada, não?! Ah, eu poderia ser simplório e dizer “mundo”, no lugar de “sociedade”. Mas, não, não quero falar do “mundo”, que englobaria “todos” e “todomundo”, mas quero falar, sim, sobre essa nossa sociedade medíocre, cuja desfaçatez beira o absurdo. E essa sociedade, representada por uma rede social que efetivamente não me representa, mas que é apenas um meio de eu tentar atingir pessoas que não conseguiria de outras formas. Entretanto, uma rede que se supõe “de amigos”, não passa de uma rede de intrigas, uma rede de vaidades. Um culto ao ego, um culto a narciso, um culto a tudo que há de ruim nessa mesma sociedade. Responsabiliza-se políticos, retirando de seus próprios ombros a responsabilidade. Tratam hipocritamente o restante das pessoas como “iguais”, mas se acham “mais iguais que os outros.” Falam e bufam sobre arte e não fazem nada para incentivar artistas que não sejam os mesmos ou a si próprios. Enfim, estou ficando muito cansado dessa lenga-lenga hipócrita, essa rede de hipocrisia. Poucos são verdadeiros nesta “sociedade”. Há uns dez dias removi 1200 “amigos” desta sociedade anônima. Ainda ficou muito. E quem sabe, em breve eu me auto remova.

28/06/2017

50. E Ainda Pensas Que És Feliz?

Há algum tempo, Cioran perguntou: “Todos os seres são infelizes; mas quantos o sabem?” E se, em meados do Século XX, poucos sabiam, imaginem agora, nesse hediondo inicio de XXI, quando o mundo inteiro, coberto por um manto vulnerável, se transformou numa praça de guerra, onde nem mesmo as regras claras de uma guerra são aplicadas. Mesmo numa guerra há honra e ética, mas não nesta, que nunca foi declarada, mas que é travada em todos os cantos do planeta. As mãos invisíveis dos que a comandam empunham relógios dourados, que marcam apenas a hora do começo, nunca do fim. E essas mãos mortíferas tem nomes, ou ao menos alcunhas: religião e política. E agem exatamente da mesma forma impiedosa, transformando em zumbis aqueles que o seguem, roubando-lhes a alma e a virtude. E a alma e a virtude são singulares, individuais. Pessoas infelizes e duras, cruéis, achando que exercem sua liberdade, mas que são escravos de teologias e ideologias. Duras e cruéis contra aqueles que lhes deram o melhor. E tolos e cabisbaixos contra aqueles que lhes consomem a individualidade, a maior virtude, por ser alma, de um ser humano. Pensam ser libertadores, mas são, muito, muito escravos. Roubaram tudo. Saquearam tudo. Jogaram filhos contra pais, irmãos contra irmãos, amigos contra amigos. Não há mais inocentes neste mundo. Não há mais pessoas felizes, Cioran! E ninguém sabe. Ninguém mais sabe sequer o que é felicidade.

26/06/2017

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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